No “Atlas das Criaturas Mágicas de Portugal”, do poeta e escritor Samuel Pimenta, ficamos a saber que quando os mouros nos invadiram no séc. VIII as mouras encantadas já povoavam o nosso imaginário.

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Nós precisamos de monstros?

Também precisamos de monstros, porque os monstros imaginários também nos ajudam a prepararmo-nos melhor para os monstros reais.

É verdade, que os há.

E agora falo-lhe de sereias e dragões, lobisomens e mouras encantadas, monstros e gigantes, fadas e diabos. O imaginário popular português, de norte a sul, continente e ilhas incluídas, está povoado de criaturas míticas. Há uns que de certeza já sabia ou receou, outros provavelmente nunca tinha ouvido falar, como as Jans, as Almagonas, o Teatro Azeiteiro ou a Zorra Berradeira. A partir de uma recolha da tradição literária e oral, o Samuel Pimenta, artista, poeta e escritor, identificou e selecionou 71 criaturas bíblicas do nosso imaginário, do imaginário popular português. Depois, coube a Helena Soares ilustrar estes seres que há várias gerações povoam os nossos medos, fantasias e aventuras. Nasceu assim este maravilhoso "Atlas das Criaturas Mágicas de Portugal". Olá, Samuel, e bem-hajas por teres aceitado este meu convite. Bem-vindo à Rádio Observador.

Olá, João Paulo. Obrigado.

É um grande prazer estar aqui a falar contigo. De facto, poeta, escritor, artista, mas a primeira pergunta que eu vou te fazer é: Samuel F. Pimenta, o F é de quê?

E tiveste que pôr, vi coisas tuas que era assinado Samuel Pimenta.

É porque apareceu algum Samuel Pimenta famoso noutra área e tu tens te um bocado distinguido. Normalmente não usas.

Houve um livro em que eu tive de mergulhar muito na minha ancestralidade da parte da minha mãe. Inclusive fiz uma residência artística na terra de onde ela é originária, na Beira Alta.

Isto foi as "Iluminações de uma mulher livre"?

Isto que editaste já vai fazer 10 anos para o ano que vem.

Exatamente. Não, este ano.

Não, 2017. Sim, verdade. Estava a escrevê-lo em 2016, foi quando fiz a residência artística.

E para este livro, já precisaste de fazer um vatamento no folclore de coisas. Sim, senhor, o tal do casamento opressor e o marido, os grupos femininos secretos que fazem as suas curas e magias.

Esse livro mergulhou bastante no folclore e mergulhou bastante também na história da minha família materna. E por uma questão de querer também honrar essa parte, a parte da minha mãe, acrescentei o F. Não acrescentei Figueiredo, porque isso também seria demasiado extenso.

Então acrescentei o F ponto, achei que era uma boa solução.

Porque falamos de criaturas míticas, tu também estás muito associado às avós, às mães. Tu vens de uma terra também, Alcainhões, é onde tu moras, ali ao pé de Santarém, mas ouviste sempre essas histórias e acreditavas piamente, como eu e como toda a gente, que essas criaturas existiam. Mas tu ouvias essas histórias, era uma coisa que te era dada.

Sim, eu cresci a ouvir muitas histórias que fazem parte do nosso imaginário popular, da nossa herança cultural, seja sobre fadas, sobre mouras encantadas, sobre lobisomens.

Incrível. Mas não sabia que tantas e tão variadas. Isso é a beleza deste livro.