Joana Lamego é diretora de Desenvolvimento de Investigação Estratégica da Fundação Champalimaud e apresenta-se como “cientista reformada”. Uma conversa sobre ciência, gestão e ambição.

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O meu maior sonho é contribuir para tornar Portugal verdadeiramente ambicioso. Não nos esquecermos da ambição.

Este é o Querido Líder da Rádio Observador. Eu sou o Ricardo Conceição e como sempre conto com a preciosa ajuda dos especialistas Milton Sousa e Jorge Medeiros, que os ouvintes habituais do Querido Líder já sabem que eles não gostam que os chame de especialistas, mas é a vida. Hoje recebemos a Joana Lamego, diretora de desenvolvimento de investigação estratégica da Fundação Champalimaud, onde lidera uma equipa dedicada a captar financiamento e a desenhar programas que permitem à ciência portuguesa competir no primeiro escalão mundial. É formada em microbiologia e genética pela Universidade de Lisboa, doutorou-se em biotecnologia também na Universidade Nova de Lisboa, completou uma pós-graduação em gestão de marketing farmacêutico e fez o caminho do laboratório para a gestão da ciência. Passou por instituições como o Instituto Gulbenkian de Ciência, o IBET e o Instituto de Medicina Molecular, antes de chegar à Fundação Champalimaud. Define-se como uma cientista reformada, mas não tem idade para isso. Especializou-se em estratégias de financiamento e desde 2017, a equipa que lidera já trouxe para a Fundação Champalimaud mais de 100 milhões de euros em financiamento externo. Ao mesmo tempo, está envolvida em iniciativas como Bridge AI, inteligência artificial em inglês, sobre regulação e ética da inteligência artificial e projetos que cruzam ciência, cultura e gastronomia, como o Science Kitchen. Bem-vinda, Joana Lamego.

Obrigada pelo convite.

O que é isto do Science Kitchen? Temos cozinheiros de bata branca?

Cozinheiros a prescrever?

Temos cientistas que são internacionalmente reconhecidos pela sua atividade científica, que foram desafiados a colaborar com chefs também de renome internacional, alguns com várias estrelas Michelin, para combinarem o seu conhecimento, saírem da sua zona de conforto e perceber que juntos podiam criar algo novo, algo diferente. E foi muito interessante porque nós não sabíamos onde é que íamos. Foi uma prova de conceito de trazer a sociedade para dentro da ciência. E pensámos nestes dois mundos, porque na realidade são dois mundos que são mais parecidos do que à primeira vista possa parecer. Porque ambos aplicam o método, o rigor, uns na confeção, outros nas suas experiências científicas.

E é muita ciência na culinária.

Há muita ciência por trás.

Na forma como os alimentos se transformam.

Muito, há muito conhecimento. Dois mundos que aparentemente estão tão longe, na realidade têm muitos pontos em comum. E foi muito interessante, primeiro trazer os chefs para dentro da Fundação Champalimaud e depois os cientistas irem para as cozinhas. E daqui saíram novos pratos, saíram narrativas extraordinárias, comparações fantásticas que resultaram numa experiência. Foi uma experiência gastronómica, científica, que eu não sei descrever, foi uma experiência única. Podia ter corrido mal, correu muito bem, na Fundação Champalimaud.

O jantar foi bom nesse dia?

O jantar foi maravilhoso.

Era assim tão má a comida antes?

O jantar foi maravilhoso porque foi uma espécie de uma degustação informal em que a ciência fazia parte de tudo. Fazia parte do discurso, porque estávamos dentro da Fundação Champalimaud, das conversas entre as pessoas, fazia parte de tudo. E era precisamente isto que nós pretendíamos, que era que a ciência não fosse um bicho à parte.

Ou seja, estavam todos vendados enquanto saboreavam a refeição?

Não estavam todos vendados. Podia ser, há agora umas iniciativas desse tipo, mas estavam confrontados com questões. Eu vou destacar a sobremesa.

Porque eu sou uma incondicional de doces. O que é que aconteceu na sobremesa? Houve uma questão inicial. A sobremesa tinha duas partes. Imaginem uma espécie de um gelado e uma espécie de uma tarte de pastel de nata. E a questão foi antes da prova, da degustação, foi colocada a pergunta a todos os presentes: qual das duas partes é mais calórica? Invariavelmente, a resposta era a da tarte.

Em relação ao gelado, que era mais fresco. Na realidade, eram exatamente iguais. E, portanto, aquele momento, desde a questão, de suscitar a curiosidade. Reparem, aquilo que eu vos estou a descrever é o método científico. Tem uma questão. Então agora a atividade experimental foi a degustação, que é ótima. Vamos experimentar.

E o grupo de controle, o que comeu?