O estigma em torno da menstruação faz com que meninas sofram todos os meses sem produtos para conter o fluxo, aguentem dores sem tratamento e faltem nas escolas
Resumo gerado por ferramenta de IA treinada pela redação da Editora Abril.
Numa casa simples, onde a água é contada, Luna toma banho de caneca para limpar o sangue entre as pernas. Não há dinheiro para absorventes, mas é preciso encontrar uma solução antes que ela falte mais aulas ou, de novo, enfrente as piadas dos colegas sobre as manchas vermelhas na roupa.
A mãe entrega um coletor menstrual, e a jovem parte para a escola. Desta vez, ela se move com segurança na cadeira porque sente que a menstruação não vai vazar. Ao entrar no banheiro do colégio para esvaziar e higienizar o coletor, porém, descobre que não há água.
A história não é real, faz parte do curta-metragem mexicano Dias de Abundância, mas é um retrato plausível da experiência de milhões de jovens no mundo, inclusive no Brasil. A menstruação chega, mês após mês, para meninas que não têm meios de lidar com ela.
Adolescentes cobrem suas calcinhas com papel higiênico, folhas, panos, pedaços de colchão, miolo de pão ou qualquer coisa que pareça conter o fluxo. Além de poder causar infecções, esses substitutos costumam vazar.
Segundo uma pesquisa do Fundo de População da ONU (UNFPA) Brasil, publicada em 2021, 11,3 milhões de pessoas de baixa renda no país vivem em situação de pobreza menstrual. Presas ao estigma, não vão à escola para evitar a exposição.
A cada mês, 16,9% das estudantes da rede pública faltam às aulas por não ter absorventes, segundo dados do IBGE divulgados em 2026. Em muitos lares, esses itens são percebidos como caros demais ou até secundários diante de outras urgências para sobreviver.
Alternativas reutilizáveis, como coletores menstruais, tampouco se apresentam como solução. Cerca de 46,2% das residências brasileiras enfrentam algum grau de precariedade no saneamento básico, o que compromete a limpeza adequada desses produtos.
O constrangimento que acompanha a menstruação, visível em gestos como esconder um absorvente ao caminhar até o banheiro ou no medo de uma mancha de sangue, é ainda mais forte quando faltam meios básicos de cuidado.
Essa vergonha não surge do nada. Ao longo da história, diferentes tradições e pensadores ajudaram a consolidar a ideia de que o sangue menstrual é mais impróprio do que aquele proveniente de outras partes do corpo. Para citar um exemplo, por volta do ano 70 d.C., o historiador Plínio, o Velho escreveu que uma mulher menstruada seria capaz de provocar o murchar das colheitas e levar abelhas a abandonar suas colmeias.
Muita coisa mudou de lá para cá, mas a menstruação continua tendo associações negativas. Um experimento realizado em 2002 por pesquisadores do Colorado College e da Universidade do Arizona expôs esse problema.
No estudo, uma atriz deixava cair um absorvente ou um prendedor de cabelo na frente dos participantes. Quando o objeto era o produto menstrual, pessoas de todos os gêneros avaliavam a mulher de forma mais desfavorável, demonstravam menor simpatia e atribuíam a ela menos competência. Anos depois, em 2020, a marca Tampax anunciou um absorvente interno que poderia ser aberto de modo “totalmente discreto”, sem produzir barulho.
“O corpo feminino não domina o espaço público, é visto como cheio de enigmas e entendido pela medicina moderna como diferente do padrão estudado, que é o masculino. Toda essa visão faz com que as mulheres compreendam seus corpos como algo incompleto, é como se fosse um mini-homem”, diz a psicóloga Úrsula Maschette, mestre pela University College London (UCL) e referência sobre educação menstrual no Brasil, em entrevista durante a Alana Ideia Fest 2026*, com o tema “Ser menina não deveria doer”, voltado à ampliação do debate público sobre saúde menstrual.
Foi nesse cenário que meninas passaram a bater à porta de parlamentares e apresentar propostas de lei voltadas ao combate à pobreza menstrual no país. Eram integrantes do Girl Up Brasil, iniciativa ligada à Fundação das Nações Unidas. As garotas tinham conduzido uma campanha exaustiva de arrecadação de absorventes, mas concluíram que a coleta não se sustentaria de forma contínua. Por isso, recorreram ao poder público.
Em meados de 2020, o movimento ajudou na concepção de um projeto de lei estadual que inclui absorventes na cesta básica e reduz impostos sobre esses produtos essenciais. No Distrito Federal, o Girl Up coescreveu o texto do projeto que deu origem à Lei nº 6.779/2021, que garante a distribuição de absorventes em escolas e unidades de saúde.
Desde 2024, o Brasil tem o Programa Dignidade Menstrual para retirada de absorventes gratuitamente. Porém, movimentos sociais e organizações apontam que a implementação do programa ainda enfrenta desafios estruturais e exige campanhas permanentes de educação sobre o tema.
As meninas Girl Up continuam falando sobre menstruação porque não é apenas a falta de recursos ou a vergonha que afastam adolescentes da escola. Menstruar também pode doer, e doer muito. A cólica menstrual tira da aula 4 em cada 10 alunas no Brasil, segundo levantamento do Instituto Alana e do Instituto Equidade.Info, divulgado em junho deste ano, sendo a principal causa de ausências durante o período menstrual.
“Toda pessoa que menstrua tem contração uterina, o que causa cólica. Muitas vezes essa contração não é percebida como dor, porque o organismo entende que não há dano”, segundo Omero Poli, doutor pela USP e coordenador do Centro Brasileiro do Endometriosis Phenome and Biobanking Harmonisation Project.
Mas é possível que ela seja notada quando há alguma mudança, como a ansiedade extrema para o vestibular. “Nesse caso, a pessoa pode sentir dor porque o cérebro não bloqueia essa percepção. A dor existe para alertar sobre algo que está acontecendo, é natural do corpo, o problema surge quando essa sensação se repete com frequência.”
A cólica menstrual intensa pode ter diferentes causas, inclusive um ambiente estressante na infância. “Em Londres, descobrimos que viver em ambientes violentos, sofrer abuso, ser negligenciada pelos responsáveis ou perder esses cuidadores são fatores de um ambiente estressor que aumenta as dores durante as cólicas menstruais”, comenta o doutor, sobre pesquisas que participou na faculdade de Oxford.




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