O Brasil responde por 55% das exportações mundiais de soja. A Austrália, por 53% das de minério de ferro. A Costa do Marfim vende quase todas as cascas de c...
O Brasil responde por 55% das exportações mundiais de soja. A Austrália, por 53% das de minério de ferro. A Costa do Marfim vende quase todas as cascas de cacau exportadas no planeta. Pelos manuais de antitruste, são mercados altamente concentrados, com um jogador dominante. Seria de esperar que esses países ditassem preços e colhessem lucros extraordinários. Não é o que acontece. E entender por quê diz muito sobre o desenvolvimento econômico.
Poder de mercado é a capacidade de cobrar acima do custo sem perder as vendas. Ter uma fatia grande do mercado é uma condição para isso, mas está longe de ser suficiente. A pergunta decisiva é outra: o que acontece quando o grande vendedor tenta subir o preço?
Se o produto é homogêneo, se o preço é formado em bolsa ou em índice internacional e se qualquer um com terra ou jazida pode aumentar a produção quando o preço sobe, o dominante não domina nada. Qualquer tentativa de segurar o preço é respondida por mais oferta dos concorrentes. Joe Bain, um dos pais da organização industrial, chamou isso de condição de entrada: o que protege um vendedor não é o seu tamanho, é a dificuldade dos outros de entrar.
Na soja há ainda um detalhe que as estatísticas por país escondem. Os 55% do Brasil não pertencem a um vendedor, mas a milhares de produtores que não coordenam nada entre si. Cada um deles aceita o preço de Chicago. A concentração parece alta quando se olha o país, mas é baixíssima quando se olha quem de fato vende.
A história brasileira tem o exemplo clássico. No começo do século XX, o Brasil produzia a maior parte do café do mundo. Com o Convênio de Taubaté, em 1906, os estados produtores passaram a reter estoques para sustentar o preço. Deu certo por um tempo. Mas o preço alto estimulou o plantio na Colômbia, na América Central e depois na África, e o Brasil foi perdendo participação. A tentativa de exercer poder de mercado sem barreira à entrada acabou financiando os concorrentes.
Compare com o mercado de vacinas e produtos biológicos. Os Estados Unidos respondem por apenas 17% das exportações mundiais, e as maiores fatias se dividem entre poucos países: Estados Unidos, Suíça, Irlanda, Alemanha, Bélgica. Nenhum domina. Mas as empresas por trás operam com patentes, aprovação regulatória, escala mínima gigantesca e produtos diferenciados. Ninguém entra nesse mercado de um ano para o outro. Com uma fatia modesta, cobram muito acima do custo.
Os dados do Atlas da Complexidade Econômica para 2024 mostram que isso é um padrão, e não uma exceção. Os mercados de produtos mais complexos, como circuitos integrados, vacinas, máquinas-ferramenta a laser e microscópios eletrônicos, têm poucos exportadores, mas esses poucos dividem o mercado de forma relativamente equilibrada. São oligopólios de iguais. Os mercados mais dominados por um único país estão, em geral, na base da escada: cacau, urânio, soja, minério de ferro. A dominância está justamente onde o poder de mercado é menor.
O economista norueguês Erik Reinert resume isso numa frase: o que importa é o que um país produz, não quanto ele produz. Em atividades de commodities, que ele chama de malthusianas, um país pode ser o maior produtor do mundo e ainda assim não ficar com os ganhos da própria produtividade. Quando o agricultor brasileiro produz mais soja por hectare, o preço cai e o benefício vai para quem compra. Nas atividades schumpeterianas, com barreiras tecnológicas, os ganhos de produtividade ficam com as empresas e se transformam em lucros, salários mais altos e arrecadação.
Paolo Sylos-Labini e Michał Kalecki chegaram à mesma conclusão por outro caminho. Em mercados oligopolizados, os preços são formados por margem sobre custos e resistem a cair. Em mercados de commodities, os preços são formados pela oferta e demanda do dia e transmitem ao comprador qualquer redução de custo. É o mecanismo por trás da velha tese de Prebisch e Singer sobre a deterioração dos termos de troca.
Isso não quer dizer que commodity nunca dê poder de mercado. Quando a oferta está nas mãos de poucas empresas e a entrada é lenta, o poder aparece: a OPEP no petróleo, a De Beers nos diamantes durante décadas, as três grandes mineradoras no minério de ferro transoceânico nos anos 2000. A regra não é que commodity signifique ausência de poder. A regra é que o poder vem da barreira à entrada, não da fatia. Na maioria das commodities, as barreiras jogam contra o dominante.
O Brasil costuma comemorar a liderança mundial em soja, café, carne e minério. Faz sentido: é resultado de competência produtiva real. Mas ser o maior exportador de uma commodity não coloca o país no clube dos que ditam preços. O clube que importa é o dos mercados complexos, onde poucos países, quase sempre os mesmos, dividem os assentos. Nos últimos trinta anos, o número de assentos nesse clube praticamente não mudou. Quem entrou, como a China, entrou ocupando muitos mercados complexos ao mesmo tempo, com política industrial deliberada. Liderar em soja é bom. Mas desenvolvimento é conseguir um lugar à mesa onde a fatia pequena vale mais do que a fatia grande.
O Brasil responde por 55% das exportações mundiais de soja. A Austrália, por 53% das de minério de ferro. A Costa do Marfim vende quase todas as cascas de cacau exportadas no planeta. Pelos manuais de antitruste, são mercados altamente concentrados, com um jogador dominante. Seria de esperar que esses países ditassem preços e colhessem lucros extraordinários. Não é o que acontece. E entender por quê diz muito sobre o desenvolvimento econômico.
Poder de mercado é a capacidade de cobrar acima do custo sem perder as vendas. Ter uma fatia grande do mercado é uma condição para isso, mas está longe de ser suficiente. A pergunta decisiva é outra: o que acontece quando o grande vendedor tenta subir o preço?
Se o produto é homogêneo, se o preço é formado em bolsa ou em índice internacional e se qualquer um com terra ou jazida pode aumentar a produção quando o preço sobe, o dominante não domina nada. Qualquer tentativa de segurar o preço é respondida por mais oferta dos concorrentes. Joe Bain, um dos pais da organização industrial, chamou isso de condição de entrada: o que protege um vendedor não é o seu tamanho, é a dificuldade dos outros de entrar.
Na soja há ainda um detalhe que as estatísticas por país escondem. Os 55% do Brasil não pertencem a um vendedor, mas a milhares de produtores que não coordenam nada entre si. Cada um deles aceita o preço de Chicago. A concentração parece alta quando se olha o país, mas é baixíssima quando se olha quem de fato vende.
A história brasileira tem o exemplo clássico. No começo do século XX, o Brasil produzia a maior parte do café do mundo. Com o Convênio de Taubaté, em 1906, os estados produtores passaram a reter estoques para sustentar o preço. Deu certo por um tempo. Mas o preço alto estimulou o plantio na Colômbia, na América Central e depois na África, e o Brasil foi perdendo participação. A tentativa de exercer poder de mercado sem barreira à entrada acabou financiando os concorrentes.
Compare com o mercado de vacinas e produtos biológicos. Os Estados Unidos respondem por apenas 17% das exportações mundiais, e as maiores fatias se dividem entre poucos países: Estados Unidos, Suíça, Irlanda, Alemanha, Bélgica. Nenhum domina. Mas as empresas por trás operam com patentes, aprovação regulatória, escala mínima gigantesca e produtos diferenciados. Ninguém entra nesse mercado de um ano para o outro. Com uma fatia modesta, cobram muito acima do custo.
Os dados do Atlas da Complexidade Econômica para 2024 mostram que isso é um padrão, e não uma exceção. Os mercados de produtos mais complexos, como circuitos integrados, vacinas, máquinas-ferramenta a laser e microscópios eletrônicos, têm poucos exportadores, mas esses poucos dividem o mercado de forma relativamente equilibrada. São oligopólios de iguais. Os mercados mais dominados por um único país estão, em geral, na base da escada: cacau, urânio, soja, minério de ferro. A dominância está justamente onde o poder de mercado é menor.
O economista norueguês Erik Reinert resume isso numa frase: o que importa é o que um país produz, não quanto ele produz. Em atividades de commodities, que ele chama de malthusianas, um país pode ser o maior produtor do mundo e ainda assim não ficar com os ganhos da própria produtividade. Quando o agricultor brasileiro produz mais soja por hectare, o preço cai e o benefício vai para quem compra. Nas atividades schumpeterianas, com barreiras tecnológicas, os ganhos de produtividade ficam com as empresas e se transformam em lucros, salários mais altos e arrecadação.
Paolo Sylos-Labini e Michał Kalecki chegaram à mesma conclusão por outro caminho. Em mercados oligopolizados, os preços são formados por margem sobre custos e resistem a cair. Em mercados de commodities, os preços são formados pela oferta e demanda do dia e transmitem ao comprador qualquer redução de custo. É o mecanismo por trás da velha tese de Prebisch e Singer sobre a deterioração dos termos de troca.




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