O Centro de Experimentação Operacional da Marinha gere hoje a Zona Livre Tecnológica Infante D. Henrique, e Portugal deixou de ser apenas comprador de tecnol...
Terminou na passada sexta-feira a 16.ª edição do REPMUS, e os números merecem atenção para lá do meio militar. Durante quatro semanas, entre Tróia e Sesimbra, reuniram-se mais de 1500 participantes de 36 marinhas, mais de 60 empresas de investigação e desenvolvimento, 13 universidades e cinco entidades da NATO, testando mais de 300 sistemas não tripulados com o apoio de 14 navios. O exercício cresce todos os anos, e uma parte crescente desse crescimento tem nome e sede em Portugal. Um bom exemplo que devemos replicar em outras sectores de atividade económica.
Para o leitor de um jornal económico, a pergunta relevante é porque acontece isto em Portugal e não noutro país? A resposta remonta a uma decisão tomada há quase uma década. O REPMUS nasceu de uma colaboração entre a Marinha e a Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto, sob a designação REP, e ganhou escala e o nome atual quando a NATO se associou, em 2018. Mas é justo sublinhar o papel do Almirante Gouveia e Melo, que, enquanto Comandante Naval, criou o centro de experimentação operacional da Marinha e lançou em Tróia este exercício, hoje descrito como o maior do mundo na sua área. Numa Marinha pequena e com orçamento limitado, escolheu-se investir numa infraestrutura aberta a aliados, universidades e empresas, em vez de mais uma plataforma convencional. O mérito é também dos oficiais e investigadores que sustentaram o projeto ao longo dos anos, mas a visão inicial teve um autor, e isso deve ser reconhecido.
Os resultados estão à vista, e não são apenas geopolíticos. O Centro de Experimentação Operacional da Marinha gere hoje a Zona Livre Tecnológica Infante D. Henrique, e Portugal deixou de ser apenas comprador de tecnologia de defesa para passar a ser o sítio onde outros a validam.
O maior exemplo chama-se Tekever. Nascida em 2001 no Instituto Superior Técnico, testou em Tróia, ao longo de várias edições, os drones que hoje fazem reconhecimento na guerra da Ucrânia e que o Reino Unido decidiu adotar no seu Ministério da Defesa. Este ano atingiu o estatuto de unicórnio, com avaliação superior a mil milhões de euros, a sétima empresa portuguesa a lá chegar. Não é a única a crescer neste ecossistema. Voltaram este ano a Tróia nomes como Beyond Vision (que está a ter um crescimento sustentável muito interessante), Critical Software, UAVision, Optimal, HPDRONES e UFORCE Portugal, entre 25 empresas nacionais que testaram sistemas com a Marinha. Algumas dão os primeiros passos, outras já exportam para a NATO e para forças armadas estrangeiras. O que as une é o mesmo palco, e a mesma oportunidade de validar cá o que depois vendem lá fora.
A Europa aumenta a despesa em defesa e procura fornecedores fiáveis em sistemas autónomos e vigilância marítima, num contexto em que a guerra na Ucrânia veio confirmar, na prática, muita da tecnologia testada em Tróia.
Portugal tem uma vantagem rara, a credibilidade acumulada ao longo de dezasseis edições. Falta garantir que esse valor fica cá, com compras públicas inteligentes e apoio à escala das empresas nacionais, para que a próxima Tekever não seja exceção, mas regra.
Neste setor, o da vigilância subaquática, a experiência diz que o gargalo raramente é tecnológico, é de financiamento e de encomendas que deem escala aos protótipos. Tróia mostrou que sabemos criar o laboratório. Falta mostrar que sabemos criar a indústria, uma empresa de cada vez.




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