Principais candidatos ao Senado são entrevistados pelo Terra e apresentam propostas e prioridades para um eventual mandato

Soninha Francine (Cidadania) quer ocupar uma das cadeiras do Senado por São Paulo. Em entrevista ao Terra, ela aponta que as pessoas estão cansadas da sensação de impunidade e entende que um eventual impeachment de ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) pode ser necessário caso a própria Corte não avance na investigação de suspeitas envolvendo seus integrantes. Ela, que começou sua trajetória política no PT, agora se define como uma política de centro-esquerda que abandonou alguns “dogmas” do passado. Nisso, comenta sobre não ver a hora de Tarcísio de Freitas (Republicanos) "se emancipar do bolsonarismo" e vê necessidade de que o Senado seja menos movido a emoções e paixões.

Na entrevista, a candidata comenta propostas em torno do combate ao feminicídio, meio ambiente e economia. Em paralelo, se posiciona sobre temas polêmicos no Congresso Nacional como descriminalização do aborto, redução da maioridade penal, castração química e regulamentação da inteligência artificial. 

Confira os principais pontos da entrevista:

Em meio à crise no Supremo Tribunal Federal, Soninha afirma que o impeachment de ministros não seria a melhor solução, mas pode se tornar um caminho necessário caso a própria Corte não tome medidas diante de suspeitas que considera graves. Para ela, o STF deveria abrir uma investigação sobre ministros diante de indícios que considera suficientes.

A entrevista foi concedida no último dia 17 de setembro, após o julgamento de Alexandre de Moraes no Supremo Tribunal Federal (STF), que terminou sem uma definição sobre uma possível investigação do ministro por seu suposto elo com Daniel Vorcaro, do Banco Master.

“[Impeachment] não seria a melhor forma, mas é a forma possível caso o próprio Supremo não tome nenhuma medida. A medida que precisa ser tomada agora, de imediato, e corre o risco de não ser tomada, é aceitar a abertura de um processo, de um inquérito, de uma investigação contra pelo menos um dos ministros, contra o qual existem indícios muito sérios de relações indevidas, relações ilícitas com quem é acusado de uma série de crimes em julgamento nesse mesmo Supremo” -- Soninha Francine

Para a candidata, a discussão não deveria causar pavor. “[Se os fatos não servirem] para o Supremo concordar em abrir um inquérito, abrir uma investigação, então o impeachment é o que resta.”

A candidata diz que, se eleita, votaria pelo impeachment caso existam elementos suficientes para justificar a medida. Ao mesmo tempo, pondera que uma decisão dessa natureza pode sofrer influência política --assim como aponta que toda votação é imprevisível e que pode, sim, ocorrer um impeachment injusto. 

O próximo presidente eleito poderá indicar ao menos três ministros por causa da aposentadoria compulsória de 75 anos -- o que atinge Luiz Fux, Cármen Lúcia e Gilmar Mendes. E há também a cadeira vaga de Luís Roberto Barroso, que se aposentou antecipadamente e cuja indicação de Jorge Messias por Lula foi rejeitada pelo Senado. Para Soninha, as regras atuais para a escolha dos magistrados são pouco objetivas e deveriam ser revistas.

A candidata defende critérios mais claros para as indicações, como uma idade mínima mais elevada, experiência na magistratura e a possibilidade de estabelecer um mandato com prazo definido. Ela também propõe uma espécie de quarentena para pessoas que deixam cargos no governo antes de serem indicadas ao Supremo.

“Tem uma série de critérios que a gente pode tornar mais objetivos para que a aprovação do Senado seja menos sujeita a emoções e paixões. [...] Quanto mais você objetivar, mais também vai ser fácil contestar e questionar um senador assim: ‘Mas qual foi o ponto que o senhor acha que ele não cumpriu?’ Cria mais um constrangimento também para quem vai aprovar ou não um nome indicado” -- Soninha Francine

Sobre a possibilidade de uma mulher ocupar uma das próximas cadeiras, Soninha considera possível, mas pondera que as indicações presidenciais também sofrem influência de pressões políticas e acaba passando pela questão da "pessoa de confiança".

Soninha iniciou sua carreira política no Partido dos Trabalhadores. Agora, no Cidadania, se define como uma política de centro-esquerda que revisou posições que hoje considera antigos dogmas da esquerda.

Entre elas, a candidata cita a participação da iniciativa privada na oferta de serviços à população. Ela defende políticas sociais, a redução das desigualdades e a atuação do Estado para equilibrar relações em que uma das partes esteja em desvantagem. Em paralelo, considera que empresas e organizações da sociedade civil também podem atuar nessas áreas, desde que submetidas a regras, fiscalização, metas e indicadores.

“Eu sou de centro-esquerda. O que significa que algumas coisas em que eu acreditava muito, hoje eu vejo como dogmáticas e eu acho que a gente precisa rever” -- Soninha Francine

O partido de Soninha apoia a candidatura de Tarcísio de Freitas (Republicanos) à reeleição ao governo de São Paulo --candidato próximo de Flávio Bolsonaro (PL), principal oponente de Lula (PT) na campanha eleitoral para a Presidência da República. Ao falar sobre sua posição frente à questão, a candidata faz uma análise pessoal sobre a postura de Tarcísio.

“Eu não vejo a hora do Tarcísio se emancipar do bolsonarismo. Porque, para mim, a explicação para ele continuar subindo num carro de som ao lado de Flávio Bolsonaro, pedindo voto para ele, usando boné do Maga, é que eu acredito que ele ainda se sente devedor da família Bolsonaro. Leitura minha” -- Soninha Francine

São Paulo bateu o recorde de feminicídios em 2025. Segundo dados da Secretaria de Segurança Pública de São Paulo (SSP), de janeiro a dezembro foram 270 ocorrências -- o equivalente a uma mulher assassinada a cada 32 horas no Estado. O que fazer para mudar isso? Para Soninha, o enfrentamento da violência contra a mulher precisa começar antes de a agressão atingir seu estágio mais grave. Ela defende campanhas de comunicação para alertar sobre os primeiros sinais, como humilhações, ofensas, controle do celular e agressões físicas iniciais.

“Começa assim. As mulheres precisam saber: Não menospreze essas pequenas violências iniciais, porque elas vão se agravar. Então, comunicação é fundamental" -- Soninha Francine

A candidata quer a ampliação dos centros de referência da mulher, com assistentes sociais, psicólogos e advogados, e o repasse de recursos federais para o custeio desses espaços. Nos casos com medida protetiva, propõe tornozeleiras eletrônicas, centrais de monitoramento e aplicativos de emergência para tornar efetiva a distância determinada pela Justiça, além de ações como a Ronda Maria da Penha, que, segundo ela, exigem recursos para viaturas e profissionais preparados.