Rivalidade entre superpotências pressiona empresas americanas a substituir peças chinesas, mas especialistas alertam para custos e desafios do processo

Compartilhar matériaSete anos após fundar uma startup de robótica em San Francisco, Rajat Bhageria enfrenta uma nova e assustadora tarefa: construir robôs sem nenhuma ajuda da China.

Como a maioria das empresas de robótica sediadas nos EUA, a Chef Robotics passou a depender fortemente de componentes chineses para fabricar os braços robóticos que vende a fabricantes de alimentos para automatizar a montagem de refeições prontas.

A capacidade da China de produzir peças baratas em volumes incomparáveis a tornou uma fonte essencial de produtos tecnológicos competitivos em todo o mundo.

Mas, à medida que a China começou a dominar indústrias avançadas, dos veículos elétricos às fábricas automatizadas, os EUA, cada vez mais protecionistas sob o presidente Donald Trump, intensificaram as restrições ao uso doméstico de tecnologia chinesa, incluindo drones, robôs móveis e outros eletrônicos críticos.

"Por um tempo, é claro, era como: 'Ei, vamos encontrar os melhores componentes e encontrá-los pelo menor preço'", disse Bhageria.

Agora, investidores e clientes começaram a lhe fazer uma pergunta diferente: "Por que você ainda usa peças fabricadas no exterior?"

A rivalidade cada vez mais intensa entre os EUA e a China aprofundou as preocupações sobre os riscos à segurança nacional decorrentes da dependência excessiva de sistemas e cadeias de fornecimento chinesas.

Ao proibir tecnologias fabricadas no exterior, autoridades americanas citam a necessidade de proteger dados sensíveis de consumidores e do governo, ao mesmo tempo em que incentivam a fabricação doméstica.

Mas especialistas alertam que as restrições podem estar tendo um efeito não intencional: prejudicar a capacidade das empresas americanas de acompanhar seus rivais chineses.

Décadas de terceirização deixaram os fabricantes americanos mal preparados para atender à demanda, resultando em custos mais altos e prazos de espera mais longos para empresas, universidades e consumidores que necessitam tanto de eletrônicos de ponta quanto dos mais comuns.

"Grande parte de nossas vidas digitais é construída sobre a infraestrutura de componentes fabricados no exterior e produtos montados no exterior, e isso não vai mudar tão cedo", disse Ben Armstrong, diretor executivo do Industrial Performance Center do MIT, que pesquisa competitividade industrial e automação.

"Simplesmente não sabemos como fabricá-los nos EUA. Portanto, haverá uma curva de aprendizado e, durante esse processo, o preço será alto", afirmou.

Bhageria espera que, ao iniciar agora a busca por fornecedores alternativos, sua empresa consiga mitigar possíveis impactos econômicos no futuro.

Ele tem esse luxo porque os componentes de seus braços robóticos ainda não foram afetados pelas proibições. Mas ele teme que a lista cresça. "Dá para imaginar qual será o próximo golpe, certo? Tipo, a próxima coisa podem ser os braços robóticos fixos."

A montagem final da empresa é feita nos EUA, disse Bhageria. No entanto, os componentes de utensílios de máquina acoplados à extremidade de seus braços robóticos são todos atualmente fabricados na China.

Bhageria inicialmente queria transferir essa produção no ano passado, quando Trump escalou as tarifas sobre importações chinesas. Ele rapidamente descobriu que seria proibitivamente caro fabricar as garras plásticas nos EUA e que muitos fornecedores fora da China não tinham capacidade para atender ao seu pedido.

"Na verdade, tem sido um processo muito mais difícil do que esperávamos inicialmente", disse ele. "Chegamos a conversar com algumas oficinas mecânicas realmente boas nos EUA e elas dizem: 'Não conseguimos fazer isso'".

Esses desafios ressaltam o quanto o avanço industrial chinês se tornou importante para as empresas americanas. Mas o governo dos EUA continua insistindo em desincentivar o uso de tecnologia chinesa, e a gama de produtos proibidos continua a se expandir.

Em julho, a Comissão Federal de Comunicações adicionou inversores de energia e novos robôs avançados — como os humanoides capazes de correr, pular, dançar e lutar — à sua lista de tecnologias estrangeiras restritas.

Os EUA também proibiram carros que utilizam software chinês e impuseram uma tarifa de 100% sobre veículos elétricos chineses. Tarifas semelhantes sobre drones entraram em vigor no mês passado, após uma proibição de novos modelos em dezembro.