O pedido de imposto europeu sobre lucros extraordinários tem eficácia nula na carteira e a receita no passado ficou muito aquém do previsto. A crise em Ceuta expõe a fraqueza do executivo de Madrid.
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E o vencedor é de terça-feira da tarde política da Rádio Observador, hoje com a Judite França, o Gonçalo d'Orteia Sovada e também o Alexandre Borges. Alexandre, começo por ti, assim que te der a palavra, só um bocadinho. Vamos começar pelas declarações de Hugo Soares ontem na Universidade de Verão do PSD, a dizer que só Luís Montenegro é que está preparado para ser primeiro-ministro e que André Ventura e José Luís Carneiro não estão. Ou melhor, por que é precisa esta preocupação agora? Se não há eleições, por que é preciso vincar que só um deles é que está preparado para ser primeiro-ministro?
Também me ultrapassa, confesso-te, até porque temos tido a insistência nesse argumento já desde os últimos meses do ano passado e tivemos hoje novamente, porque o ministro dos Negócios Estrangeiros foi lá dizer a mesma coisa.
Parece ser o guião oficial, não é?
Exatamente. É mesmo isso, nem sequer bem disfarçado. E de todas as coisas que o governo pode dizer, parece uma argumentação bastante escusada, porque esse argumento ainda por cima traz outro atrás, que é compará-los rigorosamente. Dizer sucessivamente que o José Luís Carneiro está cada vez mais parecido com André Ventura ou coisas do gênero. E acho que o José Luís Carneiro pode ser acusado de imensas coisas. Pode. Deixo ao critério de cada um em casa. Deixamos aqui um espacinho em branco pra cada um fazer isso, mas não exatamente dessa em particular e dessa similitude com André Ventura. Não sei se tu quiseres dividir isto, diz-me. Mas é que particularmente aqui, neste discurso do Hugo Soares ontem, isto veio ligado ao tema da Segurança Social. E parece-me que especialmente nesse é visível uma das diferenças entre os dois. Embora na prática se possa dizer que resulta no mesmo, porque basicamente não se pode contar com um nem com outro pra fazer nenhuma reforma da Segurança Social, o José Luís Carneiro e o PS estão de um lado da fronteira da demagogia, e André Ventura está de um lado da fronteira da realidade. Porque o PS está a dizer que o governo tem de afastar, está a assustar as pessoas e tem que afastar esta possibilidade de ir mexer na Segurança Social. Eu diria que é difícil afastá-la mais do que o governo fez. Aliás, eu poria a coisa, começaria até por aí, porque parece que o governo tem vergonha ou o PSD tem vergonha do estudo que encomendou, que é uma coisa que nós temos vindo aqui a comentar nos últimos dias e vai-se percebendo, no fundo, que provavelmente o que está em jogo foi uma questão relativamente simples e compreensível, que é: o estudo foi encomendado no fim de 2024. A equipa do Jorge Bravo tomou posse em janeiro de 2025. Demorou, e ainda bem, tempo a fazer este estudo, porque se imagina que não seja uma coisa que se faça de um dia pra outro. Sucedeu o mesmo que tinha sucedido com o Livro Verde, isto é, com o último estudo encomendado pela matéria por um governo PS, pelo último governo António Costa. Só ficou pronto, já estava o governo seguinte.
O estudo durou mais do que o governo.
Exatamente, é isso mesmo. Mas é curioso o que aconteceu com ambos. Portanto, este saiu agora numa altura em que o governo não confirmou uma expectativa que talvez tivesse antes, que era a possibilidade de ter uma maioria absoluta e, portanto, de poder avançar com alguma reforma sobre isto. Isso não deveria ser um problema assim tão grande se nós não olhássemos pro assunto, como ao fim de alguns dias de tentarem enterrá-lo, António Leitão Amaro tivesse feito, referindo-se a um contributo importante pra discussão, que é uma discussão que tem que ser feita com tempo, e que não estava no programa eleitoral do governo. Portanto, neste momento nós temos, no mínimo, dois estudos aprofundados, que não têm exatamente o mesmo âmbito porque o Livro Verde não contemplava a parte da Caixa Geral de Apresentações, mas temos dois estudos aprofundados sobre a Segurança Social em Portugal, coincidentes em imensa coisa. Um encomendado por um governo de esquerda a pessoas tendencialmente mais de esquerda, como Manuel Caldeira Cabral, que coordenou o estudo e que foi ministro da Economia do PS, e outro encomendado por um governo de direita a pessoas tendencialmente, diríamos, mais de direita. Portanto, estas deviam ser boas bases pra discutirmos o assunto sem o que se passa. E o que é que se passa? É uma demagogia bastante inaceitável de ambas as partes, em que nenhuma das partes quer discuti-lo. O governo não quer mesmo, e Hugo Soares ontem disse simplesmente que o governo pôs uma pedra sobre o assunto, que é bastante pior do que dizer. É pior que a gaveta. É basicamente tentar literalmente enterrar o assunto. Mas do outro lado, há a fuga total à questão, como se cada vez que dissesses: "Olha, podemos falar de Segurança Social?", alguém te acusa imediatamente de quereres privatizá-la. É isto que acontece cada vez que tentas sequer levantar o assunto. E o PS diz: "O governo tem que negar isto", quando o governo já negou, mas o que o Chega faz é aquela coisa espantosa que nós já tínhamos conhecido e que talvez não esperássemos, era que simplesmente voltasse à mesa como uma das condições já postas pra negociação do orçamento. Tinha sido uma condição pra negociar a lei laboral e já André Ventura anunciou como condição pra negociar o orçamento, que é baixar a idade da reforma, que é uma coisa que de fato ultrapassa todos os limites da lógica, sobretudo, pois quando ancorada à lógica do Chega com a imigração, que também defende a expulsão de imigrantes, a redução de imigrantes, como sabemos, tem um contributo mais ou menos de cinco pra um positivo no impacto da Segurança Social. E sobre este tema, portanto, compará-los parece-me pífio como argumento pro governo. Acho que não cola. E depois, sobre este assunto em particular, é mais uma vez deixar um assunto sério Entregue a uma demagogia de ambos os lados, em que o governo tinha especiais responsabilidades de não o fazer. É fazer perder tempo, trabalho e dinheiro investido nestes dois estudos por questões que deviam ser... Costuma dizer-se que os anjos não têm sexo. Eu acho que as contas também não deviam ter, ou pelo menos a maior parte das contas não devia ter sexo. Tu quando chamas um médico, podes ter duas opiniões diferentes, mas em princípio, eles não acham coisas opostas sobre a solução para o mesmo problema. Ou se chamares dois advogados, podem ter interpretações ligeiramente diferentes da lei, mas não acham coisas opostas. E infelizmente, quando toca a contas, e aqui em particular na questão da Segurança Social, o que temos assistido nos últimos dias é como se estas contas tivessem imenso sexo e tu se fores do sexo da esquerda, olhas para elas de uma maneira, e se fores do sexo da direita, olhas para outra, pelo menos se estiveres nos partidos em funções. Porque a verdade é que já vimos Manuel Caldeira Cabral sentado à mesma mesa num estúdio de televisão com o Jorge Bravo e a perceber que eles concordam em boa parte das medidas. E ontem, por exemplo, teve este momento televisivo também curioso, em que Jorge Bravo foi a um programa da RTP Notícias, no caso, e esteve mais ou menos frente a frente com Ricardo Pais Mamede, que tem sido um dos críticos, e às tantas, de facto, deparavas-te com essa divisão dos sexos. Ricardo Pais Mamede dizer assim: "Não, mas nós somos dois académicos, somos dois ninjas disto." Mas depois dizia: "Mas depois cada um consegue ter uma visão diferente dos factos." E era Pais Mamede a dizer: "Não, os factos são o que eu estou a dizer." Isto não faz sentido. E terminaria só dizendo isto: acho que devíamos mesmo tentar olhar para o assunto com alguma seriedade e sobretudo não dizer como, de um lado, temos mais o PS e tivemos um pouco o próprio presidente da República, embora num sentido um pouco mais benigno de acalmar as pessoas, a dizer como se o que estivesse na mesa fosse falar de cortes nas pensões, quando isso não está nesse relatório em parte nenhuma, e de outro lado, dizer que o que está em causa, como diz por exemplo o PCP, é a privatização da Segurança Social, que também não está em parte nenhuma. Podemos discutir o que lá está, que é a criação de regimes complementares à Segurança Social. Não estas fantasias sobre um assunto seríssimo que nos vai cair a todos em cima muito em breve.
Judite, queres também trazer estas referências do Hugo Soares?
Sim, eu acho que para Hugo Soares fica sempre a despesa do ataque mais pesado. E daí esta estratégia, que eu acho que tende a fazer sentido na perspectiva do PSD, que é, perante as sondagens que têm sido conhecidas, dizer: "O único que está preparado para governar é Luís Montenegro, os outros põem-nos em pé de igualdade para dizer que não estão preparados, que há aqui uma impreparação." Foi à semelhança do que fez Paulo Rangel, dizias esta tarde. Ainda assim não foi tão longe na dicotomia, mas já se percebeu que é uma estratégia alinhada e repisada, que é para gerar uma mensagem que passe e que cole. E eu acho que, no caso do Partido Socialista e de José Luís Carneiro, Hugo Soares acusa-o de nem a crise migratória ter adivinhado. Ao nascer do sol, José Luís Carneiro pôs em causa os números do INE sobre o número de imigrantes e, por outro lado, acusa Ventura de ser um populista, nas palavras do Hugo Soares, demagogo, nas palavras de Rangel, estamos mais ou menos na mesma coisa. A verdade é que Hugo Soares carregou nas tintas e pôr no mesmo pé Ventura e José Luís Carneiro parece muito excessivo de todos os pontos de vista. Mas cumpre o propósito do PSD, que é dizer basicamente que nenhum dos dois está preparado para governar. Rangel ainda usou um termo, dizer que o PS utiliza políticas de licadoses.
Também achei curioso.
Foi um pouco mais doce do que foi Hugo Soares. Mas eu acho que Hugo Soares sustenta o argumento do populismo que vê no PS com esta questão do estudo da Segurança Social, porque apesar de tudo, e falas no PCP que diz que o governo quer privatizar a Segurança Social, foi exatamente o que o PS fez. André Moscaldas, que é o porta-voz do PS, veio dizer que o governo vem colocar medo às pessoas com uma eventual privatização do sistema. Objetivamente, o governo já disse que não ia fazer nada com o estudo, mas o estudo também não fala em nenhuma privatização da Segurança Social.
Sim, é um ciclo nonsense em que estamos há uns dias com esta situação.
Exatamente. Portanto, esta ideia de agitar o fantasma da privatização, como diz o Hugo Soares, é de facto aqui culpa do Partido Socialista, não é culpa do governo. E eu acho que isso, sim, cria medo às pessoas. Não por acaso, eu acho que António Guterres Seguro teve que fazer aquela intervenção, que eu acho que se referia apenas às reformas em pagamento.
Isso é garantido. Das reformas serem sagradas.
Sim, disse que as reformas eram sagradas e eu acho que isso, numa altura em que se cria medo nas pessoas, porque pura e simplesmente não se quer discutir o assunto, de facto. E não se quer discutir o assunto e daqui a 20 anos, nem Luís Montenegro estará cá, nem André Ventura andará cá, nem José Luís Carneiro estarão nos cargos em questão e, portanto, não se preocupam com isso.
O problema fica para outros.
O problema fica para outros e para nós. Fica para nós.
Antes de passar aqui a palavra ao Gonçalo, só pedir-vos as notas para este tópico.
Eu vou dar um 3 ao Hugo Soares. Eu acho que ele cumpre o papel de ser uma espécie do rottweiler de Luís Montenegro.
É, o ponta de lança que ataca.




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