O antigo aviso continua valendo, só precisa de tradução. Não fale com estranhos serve para o chat do jogo
Quem hoje é mãe ou pai cresceu ouvindo sempre o mesmo aviso. Não fale com estranhos, não aceite bala de quem você não conhece, volte para casa antes de escurecer. O perigo tinha lugar certo, ficava do lado de fora do portão, e a casa era o refúgio onde a criança estava a salvo. Os pais dormiam tranquilos quando ouviam a chave girar e o filho entrar. Há um ano, quando o ECA Digital foi sancionado, o Brasil admitiu em lei o que muitas famílias já sentiam sem saber nomear. O medo mudou de endereço.
Hoje a criança está no quarto, com a porta encostada, e os pais estão na sala. Ninguém saiu, ninguém atravessou a rua, ninguém falou com desconhecidos na praça. Mas o estranho entrou pelo celular. Ele elogia a foto, pergunta a idade, pede um vídeo, oferece um item no jogo em troca de uma conversa em particular. O portão continua trancado e a casa nunca esteve tão aberta. A cena que há trinta anos assustava numa rua escura acontece agora com a luz acesa, a poucos metros da cozinha, enquanto o jantar esfria.
O ECA Digital nasceu para responder a esse medo novo. Ele diz a quem faz aplicativos, jogos e redes sociais que crianças e adolescentes usam aquilo e precisam ser tratados como crianças e adolescentes. Isso passa por conferir a idade de verdade, entregar aos pais ferramentas para acompanhar o uso, retirar de circulação o que fere e parar de vender a atenção de uma criança a quem pagar mais. Em palavras simples, a lei pede que a tela também tenha um portão, e que um adulto fique de olho nele.




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