É necessário compreender como os pertencimentos religiosos são construídos, transmitidos, abandonados e recombinados

A transformação da paisagem religiosa do País costuma ser descrita a partir da queda do catolicismo, do crescimento evangélico e do aumento das pessoas que se declaram sem religião. A pesquisa Religião e Vida Pública no Brasil, do Instituto de Estudos da Religião (Iser) em parceria com a Quaest, confirma essas tendências, mas também mostra que a religiosidade vivida pelos brasileiros é mais plural do que os números sobre pertencimento institucional sugerem.

Foram 15 mil entrevistas presenciais em 412 municípios. 50% dos brasileiros se declaram católicos, 29% evangélicos, 14% sem religião, 3% afrorreligiosos e 2% espíritas. A distribuição etária ajuda a compreender a mudança: entre 16 e 34 anos, os católicos são 39%, os evangélicos, 33%, e os sem religião, 19%. Entre os brasileiros com 60 anos ou mais, 65% são católicos e apenas 8% não têm religião. A transformação do pertencimento religioso é, portanto, também geracional.

O encolhimento do catolicismo e o avanço dos “sem religião” não significam um Brasil menos religioso: 43% dos brasileiros frequentam espaços religiosos ao menos uma vez na semana, número que chega a 67% entre os evangélicos. Os dados, contudo, mostram uma transformação na relação com as instituições, a importância das novas tecnologias digitais na mediação religiosa e das formas culturais desse repertório religioso.

É entre os “sem religião” que aparece uma das questões mais interessantes da pesquisa. A categoria, a única em que os homens são maioria, reúne pessoas que não se identificam com uma religião institucional, mas isso não equivale à ausência de crenças ou práticas religiosas. Cerca de nove em cada dez dizem acreditar em Deus; 52% oram diariamente; 51% afirmam usar a Bíblia como ensinamento para a vida. Além disso, 15% declaram ter uma segunda religião e são mais heterogêneos do que a oposição entre religioso e não religioso permite supor.

A porosidade das fronteiras aparece também nos dados sobre duplo pertencimento. 12% dos brasileiros têm uma segunda religião. A proporção chega a 32% entre adeptos de religiões afro-brasileiras, 29% entre espíritas e 13% entre católicos. São dados que confirmam que as identidades religiosas não eliminam necessariamente trânsitos e combinações entre tradições.