Professora denuncia que aluno colocou vidro na água dela em escola de São José dos Campos: 'Uma dor muito grande' Arquivo pessoal O psicólogo Carlos Benício, que atua na Subsecretaria de Segurança e Saúde no Trabalho do Distrito Federal (SEEC-DF), afirma que professores da rede pública frequentemente enfrentam condições mais difíceis, por fatores como um maior número de alunos, baixa remuneração e contato com vulnerabilidades sociais. De um modo geral, os educadores costumam sofrer por sobrecarga de trabalho, jornadas extensas, múltiplos vínculos empregatícios, elevado número de turmas, excesso de atividades burocráticas, pressão por resultados, necessidade permanente de atualização profissional e dificuldades para conciliar vida pessoal e trabalho. "A docência é uma profissão que exige um investimento emocional permanente. Diferentemente de atividades predominantemente técnicas, o trabalho do professor é sustentado por relações humanas complexas. O docente não transmite apenas conhecimento; ele administra conflitos, acolhe estudantes em sofrimento, dialoga com famílias, responde a demandas institucionais, lida com avaliações constantes e, muitas vezes, enfrenta episódios de desrespeito ou violência. Trata-se de um trabalho em que a dimensão afetiva é constitutiva da própria atividade profissional", afirma o psicólogo Carlos Benício, que atua na Subsecretaria de Segurança e Saúde no Trabalho do Distrito Federal (SEEC-DF). Lâmina que foi encontrada em copo de professora em São José dos Campos, SP Reprodução/TV Vanguarda Relembre o caso da professora No início da semana, a professora Michele Ramos denunciou que um aluno colocou uma lâmina de vidro, usada em análises de microscópio, dentro do copo de água dela durante uma aula na Escola Municipal de Ensino Fundamental Integral (EMEFI) Prof.ª Ildete Mendonça Barbosa, no bairro Parque Residencial União, em São José dos Campos. Antes de beber a água, a professora desconfiou da agitação dos alunos e foi alertada por estudantes sobre a presença do vidro no copo. A Polícia Civil registrou o caso, inicialmente, como tentativa de lesão corporal e encaminhou a investigação para a Delegacia da Infância e da Juventude. Três alunos envolvidos com a situação foram suspensos e o caso segue em apuração. 'Vou precisar de ajuda psicológica', diz professora que denunciou vidro na garrafa Ambiente escolar e mudanças Segundo o psiquiatra Gustavo Estanislau, o ambiente escolar tem passado por mudanças nos últimos anos e há um envolvimento menor da comunidade com os profissionais da educação. Ao mesmo tempo, os estudantes têm se mostrado mais hostis ao educador. "Quando a gente lida com alunos com perfil mais agressivo, seja fisicamente, seja psicologicamente, o educador tende a entrar num estado de alerta característico do estresse. O estado de alerta faz com que a pessoa tenha mais dificuldade de se autorregular, então a gente pode ter um educador que está mais ansioso, que está mais sensível, no sentido de ficar mais irritável também", afirma o psiquiatra Gustavo Estanislau. Estanislau diz que estudos têm mostrado um aumento no número de afastamentos dos educadores dos seus trabalhos ao longo do tempo. Para ele, existe um aumento no índice de transtornos mentais, de acometimento psíquico de educadores ao longo desses últimos anos. A psicóloga Andreza Manfredini cita o fato de haver professoras que acumulam funções fora da escola, especialmente quando cuidam da família. Esse fator é um dos motivos que podem favorecer o estresse. "Por exemplo, professoras que são mulheres, muitas vezes mães de filhos pequenos, o que exige uma demanda muito intensa dentro da família, ou mães solos, que trabalham como professoras e são mães. Há um estresse acumulativo na vida dessas professoras mães. Então, isso também é algo que pode levar a uma exaustão, junto com o trabalho também exaustivo do professor", afirma a psicóloga Andreza Manfredini. Como lidar com o problema Os especialistas ouvidos pelo g1 concordam que o professor precisa de apoio quando se deparar com situações que levem a um problema de saúde mental. Para eles, ambientes com acolhimento, boa comunicação, apoio e valorização do trabalho ajudam a reduzir as chances de prejuízos mais sérios ao profissional. O psicólogo Carlos Benício destaca que não se deve atribuir exclusivamente ao professor a responsabilidade pela própria saúde mental, mas que o cuidado individual também é importante. Segundo ele, não se pode substituir a necessidade de condições adequadas de trabalho e de políticas institucionais de proteção para a manutenção da saúde do educador. No aspecto individual, a manutenção de atividades de lazer, prática regular de exercícios físicos, preservação dos vínculos familiares e sociais, estabelecimento de limites entre vida profissional e pessoal e busca de acompanhamento psicológico quando necessário são decisivos para impedir maiores problemas com a saúde mental. "É importante compreender que saúde mental não depende apenas da capacidade individual de adaptação. Ela também é resultado da qualidade das relações de trabalho, do reconhecimento profissional e da existência de redes institucionais de suporte", declara o psicólogo Carlos Benício. Em caso de uma crise ou situação limite, Andreza Manfredini diz ser fundamental acolher o professor e evitar julgamentos. Para ela, o ideal é afastá-lo da situação de maior estresse e oferecer suporte psicológico e psiquiátrico, quando necessário. "Se a instituição ou a Secretaria da Educação dispõe desse atendimento, ele deve ser utilizado." Saúde mental dos professores Em São José dos Campos, um estudo da própria prefeitura mostrou que os profissionais de educação são os que mais se afastam do trabalho por motivos psiquiátricos, entre os servidores públicos do município. O dado mais recente, de 2024, mostra que 49% das ausências entre os professores são por questões relacionadas à saúde mental. A segunda categoria com maior percentual de afastamento por motivos psiquiátricos é a de profissionais de saúde. O levantamento da Prefeitura de São José dos Campos aponta que 22% das ausências do trabalho têm origem em quadros de saúde mental. Lâmina de vidro em copo: professora poderá mudar de escola A Prefeitura de São José dos Campos emitiu nota dizendo que possui um núcleo de atendimento com equipe multidisciplinar com psicólogo, enfermeiro e assistente social ao servidor público. Para ser atendido o profissional pode procurar o serviço diretamente ou ser encaminhado pela chefia imediata, informou o Município (veja nota abaixo). Nota da Prefeitura de São José dos Campos "A Prefeitura conta com um Núcleo de Acolhimento ao Servidor, com equipe multidisciplinar composta por psicólogos, enfermeiro do trabalho e assistente social. Para ter acesso aos serviços do núcleo, o servidor pode procurar diretamente ou ser encaminhado pela sua chefia imediata. Primeiramente, o servidor é avaliado pela equipe de enfermagem ou o médico da Medicina do Trabalho, para posterior atendimento psicológico. A Prefeitura de São José dos Campos esclarece que os equipamentos de saúde mental da cidade oferecem tratamento aos munícipes seguindo o fluxo padrão, com encaminhamento pelas Unidades Básicas de Saúde (UBSs) Resolve ou pelo pronto-atendimento emergencial. A saúde ocupacional dos servidores é responsabilidade da Medicina do Trabalho, vinculada à Secretaria de Gestão Administrativa e Finanças. Se houver indicação, é feito encaminhamento ao serviço de referência." Veja mais notícias do Vale do Paraíba e região bragantina