Na era dos filtros e do culto a corpos perfeitos, descubra como o Transtorno Dismórfico Corporal se tornou um desafio de saúde pública

Resumo gerado por ferramenta de IA treinada pela redação da Editora Abril.

“Na minha cabeça, esse sofrimento em torno do corpo era algo muito natural para todos”, lembra a produtora e podcaster Giulia Costa, que, mesmo cercada por uma vida confortável e pelo brilho do meio artístico, não se viu imune aos impactos do adoecimento psicológico.

A relação com a própria imagem sempre se mostrou delicada, mas foi durante o tratamento para a ansiedade que ela percebeu que aquilo não era tão comum quanto imaginava. O uso de laxantes e a busca por métodos de emagrecimento rápido, acionados sempre que se sentia “inchada”, faziam parte de uma rotina perigosa.

Mas o que começou como uma insatisfação pontual revelou um quadro mais complexo, envolvendo uma série de distúrbios, entre eles, a dismorfia corporal. “Quando vou comprar roupa, nunca consigo acertar na numeração, porque sempre pego o tamanho que acho que é o meu. Eu me vejo daquele jeito, mas, na hora de vestir, percebo que caberiam mais dois braços na cintura”, conta.

Se engana quem pensa que o relato de Giulia, filha da atriz Flávia Alessandra e do diretor de TV Marcos Paulo, trata-se de um caso isolado. Nas redes sociais, o sucesso da trend “Odeio essa foto… mas você talvez não tenha percebido…” escancarou o quanto esse olhar distorcido é amplamente compartilhado, especialmente entre mulheres. Nos vídeos, usuárias destacam detalhes em seus próprios corpos que passam completamente despercebidos por qualquer outra pessoa, mas que, internamente, ganham proporções devastadoras.

O que parece ser apenas mais uma trend sobre inseguranças pode ser, na verdade, a ponta do iceberg do Transtorno Dismórfico Corporal (TDC), que, segundo estudos da Universidade de Oxford, já atinge entre 2% e 5% da população mundial.

Muito além da vaidade, o TDC está inserido no espectro dos transtornos obsessivo-compulsivos e impacta não só a forma como a pessoa se enxerga, mas também como se relaciona com o mundo, e ganha dimensões ainda maiores quando se trata de adolescentes.

De acordo com a pesquisa TIC Kids Online Brasil 2025, do Centro Regional de Estudos para o Desenvolvimento da Sociedade da Informação (cetic.br), 92% dos brasileiros entre 9 e 17 anos já utilizam a internet. E os efeitos dessa exposição precoce aparecem nos dados: entre adolescentes do sexo feminino de 14 a 16 anos, 85,8% relataram insatisfação corporal — especialmente em relação à silhueta —, aponta um estudo do Centro Universitário São Camilo. As jovens que acessavam as redes sociais ao menos dez vezes por dia apresentavam níveis de insatisfação até seis vezes maiores do que aquelas com menor exposição.

“Estamos vivendo uma ‘infodemia’: um excesso de informações mais ou menos verdadeiras, com imagens perfeitas, que o nosso cérebro não foi projetado para processar o tempo todo”, analisa Luís Gonçalves, coordenador do Grupo de Trabalho de Tecnologias Digitais e Subjetividades da Associação Brasileira de Psicologia Social (ABRAPSO).

Os pensamentos e comportamentos repetitivos parecem se tornar impossíveis de controlar, como a necessidade de se olhar no espelho a todo momento, de ajustar e repuxar as roupas para que não marquem e até de esconder a área do corpo que causa desconforto.

“Entre os sinais mais frequentes estão a fixação em um suposto defeito físico, muitas vezes mínimo ou inexistente, geralmente concentrado em áreas específicas, como nariz, pele, cabelo, mandíbula ou regiões relacionadas ao peso, como abdômen, quadris, coxas, flancos, costas e braços”, destaca Alexandre Pinto de Azevedo, psiquiatra e vice-coordenador do Programa de Transtornos Alimentares do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP.

No cenário das plataformas digitais, a dismorfia acaba ganhando novas formas, como a dificuldade em se ver ou se expor sem filtros, a necessidade de validação constante por meio de curtidas e comentários e o sofrimento quando uma imagem não recebe o engajamento esperado. “Uma comparação social ascendente surge quando a pessoa se compara com indivíduos que percebe como ‘superiores’ em termos de atratividade física, geralmente influenciadores e modelos com fotos editadas”, explica o especialista da ABRAPSO.

Mas os impactos não se restringem à saúde mental. Com o passar dos anos, a cirurgia plástica também vem sentindo os efeitos dessa pressão estética. Para a cirurgiã plástica Heloise Manfrim, os pacientes deixaram de considerar características do próprio corpo e chegam ao consultório já com referências de como esperam seus resultados. “Antes, eles vinham buscar orientação. Hoje, chegam apenas para confirmar o que já criaram na própria cabeça. E o nosso papel, como médicos, é justamente trazer de volta essa realidade, com individualização e segurança”, declara.

Em um estudo publicado pela Revista Multidisciplinar em Saúde, 97% dos participantes reconhecem o papel significativo das plataformas digitais na busca por procedimentos estéticos. Nessa corrida incessante pela perfeição, os consultórios parecem funcionar como uma extensão dos filtros digitais, reproduzindo referências estéticas cada vez mais uniformizadas e difíceis de alcançar: lábios volumosos, narizes mais finos e projetados, rostos harmonizados com maçãs do rosto super marcadas e traços angulares.

“É muito cômodo essa padronização para toda a indústria da estética. É muito mais fácil para o profissional fazer o mesmo procedimento para todo mundo”, afirma o cirurgião plástico Milton Rocha. “A gente tem que ter muito cuidado com isso, porque as pessoas realmente estão ficando parecidas. Isso não é bonito. Plástica e estética têm muito mais a ver com arte e individualidade”, complementa Milton.

Esse cuidado foi o que a influenciadora Ju Isen nem sempre encontrou em sua trajetória. Aos 39 anos, ela afirma ter investido cerca de R$ 500 mil em mais de 50 procedimentos. “Mesmo depois de tudo isso, eu ainda não me enxergava como as pessoas me viam. Sempre parecia que havia algo errado, que precisava ser corrigido. Hoje eu entendo que não era sobre o que eu via no espelho, mas sobre como eu interpretava aquilo”, conta ela, que tem mais de 2,4 milhões de seguidores no Instagram.

A coragem dela em vir a público abre margem para um questionamento mais amplo. Embora algumas figuras públicas já falem abertamente sobre suas intervenções estéticas, muitas ainda sustentam a narrativa de que mudanças corporais e faciais são apenas fruto de disciplina, como dietas, treinos, rotinas de skincare ou uso de suplementos. Em alguns casos, há até a negação do uso de filtros e edições em fotos e vídeos. O problema real está em vender a noção de que basta querer e se esforçar para alcançar o corpo “perfeito”. “Quando esses recursos são omitidos, a pessoa comum se sente inferior por não atingir aquele resultado naturalmente”, relata o psicólogo Gonçalves.

Mas debater a construção dos padrões de beleza e os recursos utilizados para alcançá-los talvez seja apenas a camada mais rasa do problema. Afinal, como desenvolver um olhar mais gentil para o próprio corpo quando algoritmos, filtros e procedimentos estéticos cada vez mais rígidos disputam atenção a cada rolagem de tela?

Para os profissionais da saúde mental, a busca pela autoaceitação vai muito além de gostar do que se vê no espelho, passando também pela compreensão de como funcionam a indústria da beleza, o mercado publicitário e as próprias redes sociais. “A responsabilidade pela mitigação do TDC não deve ser jogada exclusivamente sobre o indivíduo. É necessário lembrar que a insegurança gera lucro para alguém. Quando a pessoa se sente mal ao se comparar, está, involuntariamente, alimentando uma indústria que quer vender soluções milagrosas”, explica Luís Gonçalves.

Isso não significa abrir mão das redes sociais ou ignorar os benefícios que elas trouxeram para a construção de comunidades. O que se propõe é o entendimento de que cada clique revela apenas uma parcela da realidade. “É preciso fazer uma ‘limpeza’ no que se consome. Seguir pessoas reais, limitar o tempo de tela e entender que o que está nas redes é um recorte editado. Desenvolver um olhar crítico sobre como as plataformas funcionam ajuda a desmistificar a perfeição alheia”, orienta o especialista.