Anthropic, SpaceX e Meta consolidam estruturas que concentram controle nas mãos de seus criadores, enquanto Wall Street assiste sem resistir

Enquanto o mundo debate os riscos da inteligência artificial, as empresas que lideram essa revolução acabam de reduzir uma camada inteira de prestação de contas: a dos acionistas. É esse o retrato traçado pelo jornal The Wall Street Journal a partir do prospecto de IPO da Anthropic, que pode se tornar o maior da história — e que reserva aos sete fundadores da empresa de IA um poder de voto desenhado para durar, custe o que custar aos futuros investidores. O veredito de especialistas em governança pode ser uma revelação de novos tempos nas empresas: vivemos a era do CEO imperial.

O pacto do controle absoluto

A mecânica da Anthropic é única, mas o efeito não é. A SpaceX, que abriu capital em junho, concedeu a Elon Musk controle quase total da companhia por meio de uma estrutura de ações de duas classes. E, nos últimos dias, o conselho da Meta criou novas ações sem direito a voto para garantir o comando de Mark Zuckerberg sobre a empresa, reforçando seu próprio sistema de classes duplas.

O efeito coletivo, aponta o veículo, é que as companhias na fronteira do desenvolvimento da IA operam com menos accountability externo justamente quando parcelas crescentes da sociedade se preocupam com o poder das Big Techs. O debate sobre classes de ações com direitos de voto desiguais, aliás, tem mais de 100 anos em Wall Street — mas nunca esteve tão em voga.

Fundador acima do conselho

O denominador comum disso são líderes com alavancagem suficiente para ditar termos a investidores movidos pelo FOMO — o medo de ficar de fora. O caso mais recente ilustra bem: conforme o prospecto citado pela matéria, Zuckerberg, que recebe salário anual simbólico de US$ 1, alertou ao conselho da Meta que poderia ser obrigado a vender ações com direito a voto para pagar um eventual imposto californiano sobre bilionários, o que reduziria seu poder de voto de 60,6% para cerca de 53%. Ele ameaçou deixar o estado se não recebesse ajuda. O conselho cedeu.

Recompensas, montanhas-russas e um alerta ignorado

Para os acionistas, o histórico é ambíguo. Segundo dados de mercado, quem comprou ações da Meta no IPO de 2012, a US$ 38, viu o papel subir mais de 1.500% — apesar das quedas vertiginosas durante a aposta bilionária no metaverso. Já a Snap é o contraponto: com 53,1% do poder de voto, o cofundador Evan Spiegel mantém sua aposta em óculos inteligentes enquanto as ações acumulam queda de quase 70% desde o IPO de 2017. Um investidor ativista tentou forçar a separação ou o fim da divisão na última primavera — sem efeito algum.

O movimento fracassou. Em 2023, o S&P reverteu a própria regra — e o entusiasmo de investidores pessoa física fez do IPO da SpaceX o maior de todos os tempos.

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A Anthropic e a blindagem institucional

A conclusão parece “seca” e  pode servir de aviso a qualquer gestor de portfólio: comprar a ação, hoje, é votar a favor de um reinado. Resta saber se o Rei é, realmente, será um nobre no poder.