Startups do setor de cibersegurança enfretam os desafios dos riscos crescentes e da seletividade de capital de investimentos. Confira.

Um número para se registrar: o de transações de venture capital em cibersegurança no primeiro trimestre de 2026, que foi o mais baixo desde 2018, com 198 negócios, conforme aponta o relatório Cybersecurity VC Trends, da PitchBook. Ainda assim, o total se manteve em US$ 5 bilhões. A conta fecha? Especialistas acreditam que sim, pois o capital foi pulverizado em menos empresas, principalmente as que já nascem com IA no core do produto, uma mensagem de que há capital disponível, mas ele está mais exigente.

Esse movimento está sendo impulsionado, em boa parte, por investidores que estão à procura de startups para escalar e prepará-las para uma saída por meio de fusões e aquisições, ao passo que as incumbentes buscam fortalecer suas posições. Por isso, o estágio inicial está atraindo investimentos quase no nível de estágios avançados simplesmente, provavelmente porque mais gente está disposta a pagar um prêmio por IA.

Alguns exemplos ilustram a magnitude do setor, mas também do problema. Dentre os maiores investimentos do trimestre, destacam-se a Tenex.AI, que arrecadou US$ 250 milhões em uma Série B liderada pela Crosspoint Capital Partners, alcançando uma avaliação de US$ 1 bilhão, e a Upwind, especializada em segurança na nuvem, que também levantou US$ 250 milhões com a Bessemer. 

O Cloaked, por sua vez, levantou US$ 375 milhões, enquanto a Cyera, focada na segurança dos dados, arrecadou US$ 400 milhões, de acordo com os registros da PitchBook. E segundo o portal especializado InforCapital, os investimentos mundiais na indústria totalizaram US$ 6,8 bilhões no terceiro trimestre, um aumento de 50% em relação ao trimestre anterior, novamente com mais dinheiro distribuído em menos rodadas.

Para compreender o que o mercado julga viável, é preciso observar a Wiz. No dia 11 de março, o Google finalizou a aquisição da startup de segurança em nuvem por US$ 32 bilhões em dinheiro, a maior da história da empresa. A PitchBook informou que o negócio foi o principal impulsionador do recorde de US$ 32,9 bilhões em saídas no primeiro trimestre. 

Segundo o TechCrunch, a Wiz atingiu a marca de US$ 1 bilhão em receita recorrente anual em 2025 e o CEO, Assaf Rappaport, já havia rejeitado uma proposta de US$ 23 bilhões em 2024, pois acreditava que a empresa poderia se desenvolver muito mais.

Entre as iniciativas mais arrojadas do ano, vale o registro da Armadin, que foi criada por Kevin Mandia, o fundador da Mandiant. A empresa ganhou destaque em março, após arrecadar US$ 24 milhões em um seed em 2025 e cerca de US$ 190 milhões em uma Série A. No dia 1º de outubro, foi anunciada uma Série B no valor de US$ 255,5 milhões, co-liderada por Andreessen Horowitz e Accel, com uma valuation superior a US$ 2,5 bilhões, totalizando US$ 445 milhões em captação. 

Ao invés de realizar testes de invasão regulares, a startup utiliza enxames de agentes de IA que exploram falhas menores até que uma invasão total seja alcançada. No projeto de um cliente, a empresa afirma ter acionado 26.000 agentes em mais de 25.000 ativos e descoberto 38 caminhos de ataque que foram validados.

Para saber mais sobre o cenário da cibersegurança no Brasil e no mundo e conferir mais detalhes da Armadin, vale visitar a GZM, que publicou uma matéria especial sobre o tema. Ela está disponível clicando na imagem a seguir:

E a Armadin não é a única: a XBOW, situada em Seattle, arrecadou US$ 120 milhões em uma rodada Série C em março, alcançando uma avaliação superior a US$ 1 bilhão, e posteriormente adicionou US$ 35 milhões em maio, conforme relatado pelo Tech Funding News. Mandia, no entanto, identifica um perigo para os pequenos. Ele antecipa que a defesa autônoma será incorporada às soluções de EDR e firewall que as empresas já adquiriram, mesmo que não seja solicitado. Para uma startup, isso implica competir com as soluções que o cliente já utiliza em sua residência.

Um estudo com 100 CISOs da a16z, publicado em outubro, ajuda a ajustar o otimismo. Segundo 87% dos entrevistados, os gastos com segurança vão crescer, focando em ferramentas. No momento da compra, 44% das pessoas procuram primeiro os recursos nas plataformas que já utilizam, enquanto apenas 21% consultariam diretamente fornecedores especializados em IA. A entrada para as startups é limitada: 47% mencionam como razão para optar por uma delas o fato de resolver uma necessidade que o fornecedor atual não atende.

A pesquisa também revela onde existem lacunas. Encontrar falhas se tornou rápido, mas corrigi-las ainda requer identificar quem é o responsável, definir a alteração, realizar testes e implementar. Assim, 70% dos CISOs desejam que sejam realizados retestes para confirmar a correção das falhas, enquanto 67% querem dar prioridade àquelas cuja exploração foi validada. Também existe a preocupação com a segurança dos agentes de IA que atuam nas empresas: 46% dos CISOs temem que esses agentes excedam suas permissões ou sejam comprometidos de alguma forma. O capital se foca na descoberta, mas uma grande parte da frustração do cliente está na correção e na governança.

O desafio é global e por isso o mercado local também exige resultados, além de operar sob muita pressão. Segundo o estudo BugHunt Brazilian CyberSecurity Index 2026, 96% das empresas brasileiras investem em segurança da informação, em comparação a 72% em 2021, e 67% dessas empresas têm mais de cinco anos de experiência nesse investimento. Segundo o mesmo levantamento, 39% dos entrevistados não têm planos de aumentar os investimentos e 37% esperam um aumento de até 10%. 

Para dizer de outra forma, o orçamento não acompanha a velocidade da cobrança. De acordo com a consultoria PwC, 66% dos líderes empresariais e de tecnologia no Brasil estão aumentando os investimentos em cibersegurança devido à incerteza geopolítica, em comparação com 60% no cenário global. Já de acordo com a Peers Consulting + Technology, o mercado brasileiro deve movimentar US$ 4,05 bilhões em 2026, enquanto a Mordor Intelligence prevê um total de US$ 6,57 bilhões até 2031.

Os incidentes recentes (você pode ver mais detalhes sobre isso na matéria especial da GZM) impulsionam a busca por soluções de segurança. De janeiro a setembro, o sistema financeiro do Brasil contabilizou 99 incidentes cibernéticos, superando os 76 registrados durante todo o ano de 2025, conforme informações do Banco Central. 

O tema também está presente nas discussões da comunidade técnica. Na página principal do Hacker News, que serviu como fonte para este artigo, três dos trinta itens diziam respeito a problemas de segurança: uma vulnerabilidade de uso após a liberação no TCP (CVE-2026-98432, com uma pontuação de 9,8 no CVSS), um aviso sobre o Molly, um fork do Signal que não era atualizado há três meses, e uma descrição de como os pesquisadores conseguiram assumir contas do ChatGPT. Essas obras, por sinal, figuram entre as mais votadas do dia. 

As informações desta matéria indicam que, em um mercado onde o capital, a demanda e a concorrência aumentam simultaneamente, a exigência também se eleva. E com a IA se tornando um elemento central em diversas aplicações, os investidores estão buscando entender a estrutura que a sustenta, bem como uma métrica clara para avaliar seus resultados. 

No que diz respeito ao cliente, o consenso hoje é que ganha quem consegue solucionar uma lacuna específica que as grandes plataformas ainda não atendem: validação de correções, segurança de agentes e identidades de IA, por exemplo. 

E pensar de forma global desde o início, sem deixar de considerar um mercado interno onde as necessidades são reais e os orçamentos são limitados, é uma visão que, aparentemente, só tem a ajudar quem empreender no setor. Afinal, o próximo ataque, certamente já está na espreita.