Presidente entre 1995 e 2002 não atua mais na vida pública, mas seu legado persiste; juventudes partidárias analisam contradições de seu governo

Presidente entre 1995 e 2002 não atua mais na vida pública, mas seu legado persiste; juventudes partidárias analisam contradições de seu governo

Acervo Pres. F. H. Cardoso | Reprodução

de São Paulo 21.jun.2026 (domingo) - 7h00 Siga o Poder360 no Google

O ex-presidente Fernando Henrique Cardoso (1995-2002) completou 95 anos na 5ª feira (18.jun.2026). Mais de duas décadas depois de deixar o Planalto, segue como uma das figuras centrais da história recente do Brasil —mesmo para os brasileiros que ainda nem eram nascidos quando ele assumiu o governo.

Admiradores costumam atribuir a seu governo a modernização da economia brasileira e a criação das bases que permitiram a expansão de políticas sociais nos anos seguintes. Críticos citam a persistência de desigualdades e o que entendem como efeitos negativos de reformas liberais.

O seu partido, o PSDB (Partido da Social Democracia Brasileiro), tem hoje tamanho ínfimo comparado à sua importância na década de 1990. A legenda chegou a ter a 2ª maior bancada da Câmara dos Deputados em 1998, com 99 cadeiras. 24 anos depois, no pleito de 2022, o PSDB elegeu só 13 deputados, ficando com a 10ª maior bancada.

O espaço vago foi ocupado por outras legendas de centro-direita e direita, em especial o PL (Partido Liberal), que elegeu a maior bancada em 2022 (99 deputados) e é o partido do pré-candidato à Presidência Flávio Bolsonaro, 2º colocado nas pesquisas eleitorais. 

Na centro-esquerda e na esquerda, o PT (Partidos dos Trabalhadores), histórica oposição de FHC, segue sendo o maior partido. Elegeu a 2ª maior bancada em 2022 (67 deputados) e tem o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, pré-candidato à reeleição, na liderança das pesquisas para o Planalto.

O Poder360 perguntou a jovens líderes partidários de PT, PL e PSDB que apontassem o que veem como pontos positivos e negativos do governo FHC.

Julia Köpf, 28 anos, presidente nacional da Juventude do PT, caracterizou as gestões FHC como “marcadas por contradições”.

Apontou avanços na reorganização da economia por meio do Plano Real, que debelou a hiperinflação, mas desaprovou o que chamou de adoção de um “modelo econômico mais neoliberal, com privatizações e uma presença muito forte da lógica de mercado na condução do Estado”.

A agenda liberal na economia pautou os anos FHC. O ex-presidente sempre negou a alcunha de “neoliberal”, por considerar um modelo em que há “inexistência de regras”.

Sua defesa da responsabilidade fiscal e as privatizações realizadas em setores como telecomunicações e energia motivaram o “legado maldito”, termo usado pelos governos petistas que o sucederam para se referir à sua gestão. 

Köpf mencionou como positivas as políticas para a educação, como a criação do FIES (Fundo de Financiamento Estudantil), programa de crédito para estudantes de baixa renda, e o Enem (Exame Nacional do Ensino Médio), porta de entrada para o ensino superior brasileiro. 

As medidas na educação, expandidas depois nos governos petistas, são indicadas por apoiadores como importantes na democratização da educação no Brasil.

Köpf criticou a “dependência muito grande do mercado internacional” durante o governo do tucano, que se deu na expansão da globalização, e o caso da compra de votos para aprovar a emenda da reeleição em 1997, que acabou beneficiando o ex-presidente e outros que exerciam mandatos à época.

O esquema acabou não atingido juridicamente FHC, que sempre negou a participação. O então procurador-geral da República, Geraldo Brindeiro, rejeitou os pedidos para que uma denúncia contra o presidente fosse apresentada ao Supremo Tribunal Federal.

Em 2020, FHC fez um “mea culpa” sobre a reeleição e disse que a decisão “agrava” o abuso de poder.

Evandro Araújo, 32 anos, presidente do PL Jovem no Distrito Federal, destacou a ação de FHC ainda enquanto Ministro da Fazenda para a criação da nova moeda, o real. “Ajudou a trazer previsibilidade econômica para o país, controlando a inflação”, disse.

Até junho de 1994, às vésperas do lançamento do Plano Real, a inflação anualizada havia sido de 4.922%, segundo o Banco Central. Ao fim de 1995, ano posterior à introdução da medida, a taxa atingiu 22%. Desde então, o índice acumulado de 12 meses poucas vezes ultrapassou os 9%.

Mas Araújo criticou o que considera uma guinada à esquerda do ex-presidente. Para o político do PL, o ponto negativo seriam alguns programas criados na gestão FHC, que considerou “assistencialismo”. Afirmou que muitos projetos “foram transformados em moeda política, eleitoreira”.

A crítica é comum na direita. Programas como o Bolsa Escola e o Auxílio Gás, criados no governo FHC, foram depois incorporados no Bolsa Família, alvo frequente de integrantes desse espectro político.