O histórico quadro da moçambicana Frelimo Óscar Monteiro afirmou hoje que a poesia de Noémia de Sousa foi marcada por momentos de sofrimento e de exaltaçã...
"Os poemas da Noémia que eu ouvi e li naquela altura, e que ouvi aqui [na Associação dos Escritores Moçambicanos], são poemas de sofrimento. É verdade que a gente pode dizer que são poemas motivadores, mas são poemas muito sofridos, de amargura", disse.
O histórico militante da Frente de Libertação de Moçambique (Frelimo, partido no poder), jurista formado em Coimbra e antigo ministro no primeiro Governo da Frelimo, falava no encerramento da Conferência Internacional "Centenário de Noémia de Sousa: voz da Liberdade (1926-2026)", organizada por escritores moçambicanos.
O político recordou que, na década de 1960, quando esteve em Portugal para a sua formação, foi ao encontro de Noémia de Sousa em França, quando a poeta foi viver naquele país europeu, após fugir de Portugal onde sofria perseguição política, tendo na altura aprofundado o seu conhecimento sobre a poeta moçambicana.
Em França, Óscar Monteiro entregou a Noémia de Sousa um conjunto dos seus poemas datilografados e que já estavam em circulação naquela altura, com, disse, a poeta a afirmar que não conseguia mais ler aqueles escritos.
"Há na poesia momentos de sofrimento, de dor. E haverá outros, e, em alguns desses, também tem momentos de exaltação para o nacionalismo, para a revolta (...). Mas é o sofrimento que marca muito a sua poesia (…), a tomada de consciência da sua condição de oprimida", acrescentou o político.
Ao destacar o papel de Noémia como ativista, Óscar Monteiro afirmou que não existe ação política sem poesia que luta para o bem coletivo, admitindo que em Moçambique há pessoas que estão a entrar na vida política para defender interesses individuais.
"Está a acontecer no nosso país, mas isso não é política, é poder, é benefício, é conquista individual. A verdadeira política há de prosseguir com pessoas que se dedicam a uma causa. A causa pública, de fraternidade, amizade, igualdade, a causa do respeito pelos outros independentemente da sua origem", disse, pedindo aos moçambicanos para manterem o sonho de desenvolver um país justo e honesto.
"Acho que há um momento difícil em que essas ideias individualistas, egoístas, até atingem largas massas, mas não faz disso a razão de ser da política. O facto de haver muitas pessoas a roubar, muitas pessoas a aproveitarem-se do bem público não faz do roubo e do aproveitamento do benefício individual a razão de ser da política. Essas pessoas vão desaparecer", concluiu.
Nascida em 20 de setembro de 1926, na Catembe, atual Maputo, Carolina Noémia Abranches de Sousa Soares, mais conhecida por Noémia de Sousa, foi a primeira mulher negra a publicar poesia em Moçambique, fazendo da escrita uma forma de resistência ao colonialismo e à repressão da Polícia Internacional de Defesa do Estado (PIDE).
Apesar de ter produzido a maior parte da sua obra entre 1948 e 1951, os seus textos permaneceram dispersos por jornais e revistas, sendo reunidos apenas em 2001 no livro Sangue Negro, por iniciativa da Associação dos Escritores Moçambicanos.
Noémia de Sousa morreu em 04 de dezembro de 2002, em Cascais, Portugal.
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