Ponto primordial seria reconectar regime fiscal, Banco Central e bancos públicos a demandas sociais concretas
benefício do assinante
Você tem 7 acessos por dia para dar de presente. Qualquer pessoa que não é assinante poderá ler.
benefício do assinante
Assinantes podem liberar 7 acessos por dia para conteúdos da Folha.
Salvar para ler depois
Recurso exclusivo para assinantes
assine ou faça login
13.out.2026 às 22h00
Edição Impressa Diminuir fonte
Pedro Mouallem Doutor em direito (USP), é professor na FGV Direito SP
Horas após a contagem dos votos do primeiro turno, Flávio Bolsonaro (PL) decretou "o fim da era do PT". Tomada ao pé da letra, a frase é uma impostura. O senador não pode decretar coisa alguma na política brasileira; tampouco o PT, que saiu do primeiro turno com quase metade dos votos, morreu politicamente.
Mas há, por trás da bravata, uma verdade que o resultado torna difícil ignorar. É preciso apresentar uma nova página política aos brasileiros que legitimamente querem mudança.
Flávio está longe de representar uma renovação em direção a mais direitos, melhores condições de vida, menos violência e mais criatividade política. Político de carreira, sua campanha é um vazio de ideias. E, no que propõe, vale a regra: o que é bom não é crível; o que é crível não é bom. Lula tampouco representa mudança no sentido literal. Mas já demonstrou abertura à diversidade política, compromisso com demandas populares e respeito à Constituição —qualidades fundamentais para um governo de mudança. É hora, contudo, de encampar propostas pouco óbvias, capazes de apontar para o futuro e animar uma campanha que finalmente mereça esse nome. A provocação veio de Vladimir Safatle ao defender uma nova "carta aos brasileiros" —desta vez dirigida não ao mercado, mas à maioria dos cidadãos. Lanço aqui algumas ideias sobre moeda e crédito. Mais do que um programa acabado, trata-se de disputar politicamente escolhas sobre que sociedade queremos construir.
Um ponto central seria reconectar regime fiscal, Banco Central e bancos públicos a demandas sociais concretas, em um projeto de desenvolvimento. Todas essas estruturas dizem respeito a como o dinheiro é criado e distribuído e a como as pessoas podem realizar suas ambições de vida. É hora de questionar a separação rígida entre política monetária e fiscal e as falsas dicotomias entre Estado e mercado, público e privado, que dominam o debate público. O Pix mostra que o Banco Central pode assumir papel de vanguarda na construção de infraestruturas públicas. Por que não ampliar esse debate para uma moeda digital de varejo, discutindo seus riscos e possibilidades? Qual o obstáculo a uma discussão política ampla sobre novas formas de organizar as finanças? E por que não transformar essas infraestruturas em instrumentos de cooperação internacional, inclusive entre os países do Brics, reduzindo vulnerabilidades associadas à dependência do dólar?
Voltar Compartilhe Ícone Facebook Facebook Ícone Whatsapp Whatsapp Ícone X X Ícone de messenger Messenger Ícone Linkedin Linkedin Ícone de envelope E-mail Ícone de linkCadeado representando um link Copiar link Ícone fechar
Por que não estender a lógica das "missões" estatais para uma política de governança do crédito público? Bancos públicos receberiam missões voltadas não apenas à oferta de crédito de boa qualidade, mas a problemas concretos da sociedade, tais como "desendividamento", "bons empregos", "empreendimentos inovadores e sustentáveis". Isso exigiria planejamento de longo prazo e uma governança capaz de combinar coordenação política e avaliação descentralizada. A palavra planejamento só assusta quem preserva a ilusão de que o sistema financeiro privado não é também uma construção do Estado. Mas, para fazê-lo de forma democrática, é necessário assumir que toda escolha regulatória é política e que, portanto, não pode se restringir a especialistas que se julgam portadores de verdades científicas.
Voltar Compartilhe Ícone Facebook Facebook Ícone Whatsapp Whatsapp Ícone X X Ícone de messenger Messenger Ícone Linkedin Linkedin Ícone de envelope E-mail Ícone de linkCadeado representando um link Copiar link Ícone fechar
Parcerias com o setor privado serão bem-vindas, desde que potencializem os objetivos estabelecidos democraticamente. Iniciativas desse tipo só funcionarão com a reconstrução de capacidade estatal e uma regulação zelosa contra práticas predatórias de crédito. Além disso, dependerão de um ambiente favorável ao empreendedorismo inovador, que não se confunda com precarização, o que pressupõe uma política de inovação robusta. Articulando desafios, a nova carta poderia propor mudanças concretas que se encontram em uma imagem do que será o país. Nenhuma dessas propostas é simples. Muitas dependeriam de uma força política que ainda precisa ser construída. Mas é justam




0 Comentário(s)
Deixe seu comentário