Excluído do memorando de entendimento, o governo israelita enfrenta pressão de Washington para cessar hostilidades no Líbano. Donald Trump tirou o tapete a N...
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Chegou esta manhã à Suíça o vice-presidente dos Estados Unidos, J.D. Vance, para a primeira ronda de negociações com o Irão depois da assinatura do memorando de entendimento entre os dois países. A delegação iraniana, composta pelo presidente do Parlamento e pelo ministro dos Negócios Estrangeiros, chegou ontem à noite. O encontro acontece num clima de incerteza motivado pelos ataques de Israel ao sul do Líbano. O Irão denuncia a violação do ponto do memorando que determina o fim das operações militares em todas as frentes, incluindo no território libanês. É o ponto de partida para a conversa com o professor Luís Tomé, diretor do Departamento de Relações Internacionais da Universidade Autónoma de Lisboa, investigador sénior do IPRI, o Instituto Português de Relações Internacionais. Professor, bom dia. Obrigado pela sua disponibilidade. Imagino que Teerão queira sair deste encontro com garantias de que as hostilidades cessam, de facto, no Líbano. Estão os Estados Unidos em condições de assegurar essa pretensão?
Olá, bom dia. Veremos, pois nós sabemos que as duas delegações partiram com objetivos iniciais completamente diferentes. Isto é, claramente o lado iraniano, ainda hoje o reafirmaram, têm como primeiro ponto da agenda a questão do conflito Israel-Hezbollah. Aliás, parece que os Estados Unidos até acederam ser esse o primeiro ponto a negociar. Os Estados Unidos queriam e pretendem entrar de imediato nas negociações sobre o programa nuclear iraniano. Mas entretanto, nós temos aqui um terceiro ponto, que à partida não deveria ter relevância para estas negociações comparativamente às outras duas, mas se calhar até passa para o topo das conversas, que é o Estreito de Ormuz, uma vez que ainda hoje o Corpo da Guarda Revolucionária e as Forças Armadas iranianas dizem que o Estreito de Ormuz está fechado. Portanto, isso que teria sido o grande benefício resultante do memorando de entendimento conquistado pela administração Trump, até porque veio resolver um problema criado precisamente por esta guerra, afinal de contas continua bastante volátil, com o lado iraniano a ameaçar navios, a dizer que não concede passagens seguras a outros navios. Inclusive vimos ontem o presidente Trump ameaçar que, no limite, poderão até ser os Estados Unidos eles próprios a ir cobrar portagens. Portanto, a questão do Estreito de Ormuz continua volátil. Agora eu diria que vamos assistir, talvez a partir de hoje e nos próximos dias, a um paradoxo: vamos ter os Estados Unidos e o Irão, de forma articulada, claramente a não querer voltar ao conflito. Portanto, nós temos aqui um claro pacto de não agressão e a manterem-se articulados para gerir os Estados Unidos e Israel e o Irão os seus proxies, designadamente o Hezbollah, para manter um quadro mais ou menos, ainda que volátil, de cessar fogo e, portanto, de não agressão.
Vários jornalistas têm sublinhado a ideia de que os interesses dos Estados Unidos e Israel não são nesta altura coincidentes. Está Israel em condições de dar um passo atrás, enjeitar a oportunidade de minimizar a ameaça que representa o Hezbollah?
Acho muito difícil. O primeiro-ministro Netanyahu, que era há uns meses atrás apontado como o grande ganhador, para além de Israel, ele próprio o grande ganhador, agora é claramente o grande perdedor. Não alcançou nenhum dos objetivos, quer dizer, não acabou com o Hamas na Faixa de Gaza, não exterminou o Hezbollah no Líbano e agora repentinamente o seu aliado e protetor Estados Unidos tiram-lhe o tapete quando fecha um memorando de entendimento com o Irão sem envolver nem informar devidamente Israel e a pressionar publicamente, não só a criticar, o governo Netanyahu para parar as suas operações desde logo no Líbano, até porque o primeiro ponto do memorando de entendimento prevê exatamente o fim do conflito em todas as frentes, incluindo o Líbano. Ora, em ano de eleições, uma crescente impopularidade do governo Netanyahu, uma enorme dificuldade em manter a coesão do seu governo e as críticas generalizadas. Aliás, as críticas generalizadas neste momento em Israel já contaminam o próprio presidente Trump, não é apenas Netanyahu. Portanto, eu não vejo como é que Netanyahu vai pura e simplesmente aceitar as ordens da administração Trump, e há várias formas de o fazer. Não precisa publicamente dizer ou criticar o presidente Trump, mas vai tentar fazer tudo o possível para boicotar a progressão das negociações, para responsabilizar o Hezbollah de continuar a atacar e, portanto, a legitimar em defesa aquilo que Israel pretende continuar a fazer no Líbano. Por isso eu dizia que o paradoxo é ver a articulação do Irão e de Israel, cada um a tentar moderar os seus protetorados.
Encostando Benjamin Netanyahu com essa estratégia de Donald



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