Eles sonham com emprego e casa própria, sim, mas padecem num mundo em desalento econômico
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Novas pesquisas desvendam a geração Z: contrariando mitos, eles sonham com emprego estável e casa própria. No entanto, o desalento econômico os impede de acreditar que podem alcançar essas metas. Imersos na ansiedade, adotam cautela na carreira e adiam planos familiares, mostrando resiliência diante de um futuro incerto.
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Resumo gerado por ferramenta de IA treinada pela redação da Editora Abril.
Há trinta anos, a passagem para a vida adulta seguia um roteiro previsível. Cruzar a fronteira dos 20 anos significava, para a maioria dos jovens da geração X e dos millennials mais velhos, ingressar em um mercado de trabalho que ainda prometia progressão em linha reta. O primeiro emprego era o degrau inicial de uma escalada reconhecível. Com um salário inicial modesto, mas razoável, dava para planejar o resto: casamento no início da vida adulta, o sonho do financiamento da casa própria e, um pouco mais tarde, a chegada dos filhos. A estabilidade não era uma aspiração distante, mas a recompensa esperada por quem seguia as regras do jogo social.
Corte para o presente: o jovem médio da geração Z brasileira — composta pelos nascidos entre 1997 e 2012 — ainda acorda no quarto de infância, na casa dos pais. Nessa situação estão 52% dos rapazes e das moças de 18 a 28 anos no país, segundo uma recém-­lançada pesquisa do instituto Ipsos. O levantamento debruça-se sobre as aspirações de vida dos adultos em geral, mas puxa uma safra de estudos recentes que lançam um recorte revelador sobretudo a respeito da chamada gen Z. A diferença entre esses dois cenários geracionais, o de um script previsível e o de um futuro incerto, põe peso excessivo nos jovens adultos de hoje, mostra a Ipsos.
Trata-se de uma geração que nasceu num mundo digital — e, por consequência, prefere o YouTube à televisão tradicional, ou o Whats­App às ligações de telefone. Imersos na dita “economia da atenção”, esses jovens são os protagonistas mais evidentes do que os psicólogos classificam como uma epidemia global de ansiedade provocada pelas telas. Não por acaso: a geração Z começa suas manhãs diante do smartphone e move-se no mundo adulto com aflições sem fim. A começar pela dura perspectiva de trabalho: seus currículos são julgados por algoritmos que respondem com rejeições automáticas, sem que um recrutador humano jamais os leia.
A visão cristalizada pelo senso comum sobre os nascidos do fim dos anos 1990 ao início dos 2010 é de que cultivam apatia existencial, desapego material e desinteresse por hierarquias corporativas. Seriam jovens que preferem gastar com experiências fortuitas, como ir ao Rock in Rio, a construir patrimônio e estudar para o vestibular. Ou que recusam o fardo da liderança por comodismo — e veem com indiferença a ideia de formar família. Sob essa lente, a geração Z seria a que desistiu de crescer.
A nova pesquisa da Ipsos, contudo, ajuda a encontrar linhas de coerência na cabeça dessa geração e justificativas aceitáveis para muito do que é visto como comportamento errático. A Life Aspirations 2026 ouviu 22 693 adultos em trinta países — cerca de 1 000 deles no Brasil — entre fevereiro e março deste ano. Os dados mostram que a geração Z, ao contrário dos mitos propalados a seu respeito, continua alinhada aos marcos tradicionais de sucesso de seus pais e avós: emprego estável e casa própria seguem no topo das prioridades. O que mudou não foi o que esses jovens desejam, mas a confiança de que vão conseguir: a geração Z não abandonou o roteiro tradicional, só parou de acreditar que consegue segui-lo.
O primeiro mito que os números desmontam é o do desapego profissional (veja o quadro). Ter um emprego estável em tempo integral é considerado sinal de sucesso por 66% dos jovens globais entrevistados. A maioria também põe a estabilidade financeira como meta principal para os próximos dez anos: 76% deles monitoram ativamente o próprio bolso para evitar o descontrole financeiro.
A preocupação se repete, ainda com mais força, em torno da casa própria: 67% dos brasileiros entrevistados consideram esse um sinal definitivo de sucesso, ante 58% na média global. “A casa própria representa, no Brasil, muito mais do que um ativo financeiro”, explica Lucymara Andrade, diretora de pesquisas da Ipsos. “Ela carrega uma carga simbólica de proteção, independência, e é o principal marcador de mobilidade social.” Faz sentido: num contexto macroeconômico historicamente instável, possuir o próprio teto funciona como a única certeza sobre o amanhã.
O problema, mostram os dados, não é o desejo — é a distância entre desejar e esperar conseguir. No Brasil, a impossibilidade de comprar uma casa entristece 54% dos jovens da geração Z. O impacto da instabilidade profissional é ainda maior: 56% dessa parcela da população diz que ficaria um pouco ou muito triste se nunca alcançar estabilidade no trabalho — 10 pontos percentuais acima da média nacional. “O que os dados revelam não é abandono de valores tradicionais”, diz Andrade. “A casa própria, o trabalho seguro, a estruturação de uma base sólida continuam vivos no imaginário. A diferença é que as novas gerações os enxergam como quase inalcançáveis sem alguma ajuda”, completa. Ou seja: quando a expectativa desaba e o desejo permanece alto, cria-se uma verdadeira fábrica de frustração emocional.
Com esse clima de melancolia à espreita torna-se compreensível outro traço real da geração Z: sua tendência a dar passos cautelosos na carreira. Segundo uma pesquisa recente da consultoria global Deloitte, quatro em cada dez desses jovens já recusaram propostas de emprego em nome de fatores como a coerência com seus objetivos ou o cuidado com a saúde mental. Outro estudo, das plataformas CoderPad e Visier, mostra que 36% dos profissionais da geração Z não têm interesse em cargos de gestão, apenas 4% almejam posições no topo da hierarquia profissional — os chamados C-levels. No Brasil, segundo a Deloitte, só 25% da geração Z prefere uma carreira de promoções rápidas — a maioria opta por crescimento gradual. Não é recusa ao trabalho: é recusa a repetir, na vida, o preço que testemunharam os pais pagarem.
O que esses levantamentos captam, em essência, não é apenas um retrato profundo de uma faixa etária incompreendida — mas a confirmação de que, no fundo, as aspirações de cada geração de turno têm mais convergências do que nuances. As diferenças na visão de mundo são fruto das contingências da época em que viveram (veja o quadro). Assim, os baby boomers são filhos da bonança do pós-­guerra, herdada em parte também pela geração X, crescida nas últimas décadas da Guerra Fria. Já os millennials chegaram ao mundo no raiar da internet — e são a primeira geração afligida pela escassez de recursos para realizar os sonhos comuns das anteriores.
O desalento, finalmente, é a palavra que define a realidade de sua sucessora, a geração Z. E nada sintetiza isso tão bem quanto a postura dos jovens de hoje diante de assuntos como a família e os filhos. Segundo o estudo da Deloitte, nada menos que 55% deles admitem adiar o sonho de se casar e ter filhos por causa de restrições financeiras. No Brasil, 24% desses jovens já dão mais valor à posse de um bicho de estimação como símbolo de realização, enquanto apenas 19% pensam o mesmo sobre ter filhos. Essa acomodação forçada de sonhos e expectativas cobra seu preço. A geração Z é a mais ansiosa das últimas décadas: 53% dos jovens brasileiros relatam ansiedade excessiva, e 29% associam a comparação com vidas idealizadas nas redes à queda da própria autoestima, segundo a plataforma de pesquisa digital MindMiners.
Embora esses jovens enfrentem percalços mais difíceis que outras gerações do pós-guerra, ainda há uma luz no fim do túnel: a pesquisa da Ipsos demonstra que eles exibem uma notável resiliência aspiracional. “O sonho das conquistas permanece muito vivo e ativo”, diz Lucymara Andrade. A especialista argumenta que a aparente apatia não se deve à falta de ambição ou de esperança, mas às circunstâncias de uma realidade que exige cautela e estratégia. Ao decifrar a juventude atual, entende-se mais o mundo — e o Brasil.
Publicado em VEJA de 11 de setembro de 2026, edição nº 3012




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