Os poços de La Brea, no coração de Los Angeles, preservam uma das coleções de fósseis mais extraordinárias da Era do Gelo. Durante milhares de anos, gran...
Armadilhas naturais de asfalto preservaram milhares de predadores e herbívoros, revelando a vida selvagem da antiga Los Angeles
Poços de asfalto natural em La Brea aprisionavam grandes herbívoros e atraíam predadores durante a Era do Gelo Whastapp Facebook Linkedin Twitter COMPARTILHAR
Os poços de La Brea, no coração de Los Angeles, preservam uma das coleções de fósseis mais extraordinárias da Era do Gelo. Durante milhares de anos, grandes herbívoros ficaram presos em asfalto natural e atraíram predadores e necrófagos, que também acabavam imobilizados. O resultado foi uma concentração incomum de animais carnívoros.
Há dezenas de milhares de anos, a região onde hoje ficam as avenidas de Los Angeles apresentava campos, áreas arborizadas e grandes mamíferos. Sob o terreno, depósitos de petróleo alimentavam vazamentos naturais de hidrocarbonetos que alcançavam a superfície.
Quando os componentes mais leves evaporavam, restava uma substância escura e pegajosa: o asfalto natural. Em dias quentes, ela podia ficar suficientemente macia para prender animais. Folhas, poeira e pequenas poças de água escondiam o perigo, fazendo com que herbívoros se aproximassem sem perceber a superfície viscosa.
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Imagine um bisão pré-histórico que pisa sobre o asfalto e não consegue retirar uma das patas. Seus movimentos dificultam a fuga, enquanto o cheiro e os sons do animal atraem carnívoros interessados em uma refeição aparentemente fácil.
Ao se aproximarem da presa, lobos-terríveis e felinos-dentes-de-sabre também podiam ficar presos. Esse mecanismo ajuda a explicar características incomuns do depósito fossilífero:
O vídeo da CBS Los Angeles mostra os poços de La Brea e explica como o asfalto aprisionou animais pré-históricos.
O asfalto é formado por hidrocarbonetos que migraram de depósitos subterrâneos até a superfície. Sua consistência varia conforme a temperatura e a composição química. Diferentemente de areia movediça, ele não precisava engolir completamente um animal para imobilizá-lo: bastava prender suas patas.
Depois da morte, os tecidos moles eram decompostos por microrganismos, enquanto ossos e dentes permaneciam incorporados aos depósitos. O asfalto ajudava a proteger esses materiais contra alguns processos de deterioração, permitindo sua preservação por milhares de anos. Entretanto, os esqueletos frequentemente ficavam desarticulados, misturados aos restos de outros animais e aos sedimentos acumulados posteriormente.
O levantamento científico das coleções do Museu La Brea Tar Pits confirma que grandes carnívoros predominam historicamente entre os mamíferos de maior porte encontrados no local. Essa distribuição sustenta a hipótese conhecida como armadilha de carnívoros, na qual animais presos atraíam sucessivamente predadores e necrófagos.
Uma análise publicada na revista Palaeogeography, Palaeoclimatology, Palaeoecology, em 2017, destacou uma diferença importante. Embora aproximadamente 90% dos ossos de mamíferos tradicionalmente estudados fossem atribuídos a carnívoros, a proporção estimada de indivíduos era próxima de três carnívoros para cada grande herbívoro. A distinção evita confundir quantidade de ossos com quantidade de animais.
Entre os fósseis encontrados estão mamutes-colombianos, mastodontes, bisões antigos, cavalos, camelos e preguiças-gigantes. Esses herbívoros dividiam o ambiente com predadores poderosos, como Smilodon fatalis e o lobo-terrível, atualmente classificado como Aenocyon dirus.
As coleções representam muitos episódios de aprisionamento, e não uma catástrofe única. O museu registra aproximadamente quatro mil indivíduos de lobos-terríveis e mais de dois mil felinos-dentes-de-sabre, além de centenas de bisões antigos.
Os pesquisadores utilizam os depósitos para reconstruir cadeias alimentares, mudanças ambientais e relações entre espécies. Pequenos fósseis de insetos, roedores, plantas e aves complementam os grandes esqueletos, revelando características dos ambientes onde esses animais viveram.
Os poços de La Brea também ajudam a investigar as extinções ocorridas no final do Pleistoceno. Estudos relacionam o desaparecimento da megafauna regional a mudanças climáticas, incêndios e atividades humanas, embora a contribuição de cada fator continue sendo investigada. A abundância de predadores no asfalto representa, sobretudo, um efeito das próprias armadilhas, não necessariamente sua proporção na fauna original.




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