No laudo do exame de sangue comum, basta o médico olhar para a creatinina, substância que é resultado do metabolismo dos músculos. Quando elevada, portanto,...
No laudo do exame de sangue comum, basta o médico olhar para a creatinina, substância que é resultado do metabolismo dos músculos. Quando elevada, portanto, indica uma boa musculatura. O passo seguinte é dividir esse valor por outro, o da ureia, que o fígado despeja quando está quebrando proteínas, como as das fibras musculares. Simples assim.
Se essa relação se mostra alta quando alguém entra no hospital para tratar um câncer, isso sugere que aquela pessoa já está perdendo muito músculo de largada. Mau sinal. Digo isso por duas razões que se complementam: quanto maior essa perda, mais o câncer terá oportunidade para avançar e mais frágil o indivíduo estará para aguentar o tratamento capaz de colocar um freio na doença.
Ora, um tumor não faz jejum. Para crescer sem limites, consome uma energia danada e o músculo está ali, pronto para ser devorado pelo próprio organismo e usado como fonte energética, em um processo chamado de catabolismo.
A ideia de descomplicar a maneira de descobrir se isso está acontecendo com muita intensidade, tanto no momento da internação quanto repetidas vezes ao longo da terapia oncológica, foi de pesquisadores do Einstein Hospital Israelita, em São Paulo, em uma investigação apresentada no congresso da Asco (American Society of Clinical Oncology), nos Estados Unidos, em junho deste ano, e que hoje já soma mais de 180 pacientes atendidos pelo SUS (Sistema Único de Saúde).
Qual a importância disso? "Ter essa informação nos permite intervir a tempo, com estratégias nutricionais e exercícios físicos prescritos conforme o estado de cada um para evitar a derrocada da musculatura", defende o médico nutrólogo Diogo Oliveira Toledo, um dos líderes do estudo.
Doutor Toledo, mineiro de Passos, é quem costuma definir nossos músculos assim, como um patrimônio da longevidade. No início de sua trajetória, ele se dedicou à terapia intensiva, em parte porque queria atuar nas equipes que prestam atendimento a pilotos de Fórmula 1. Mas esse sonho acabou na gaveta quando, trabalhando na UTI (Unidade de Terapia Intensiva), se viu inconformado com a quantidade de pacientes completamente fragilizados porque tinham perdido musculatura.
"Foi então que, mesmo já tendo feito duas residências médicas, resolvi me especializar também em nutrologia, com foco nos músculos e, em especial, nos pacientes oncológicos", conta. "Para eles, a perda muscular se traduz em risco de complicações e, portanto, em um pior prognóstico. Isso porque, antes de mais nada, o músculo funciona um grande órgão imunológico. Daí que quem tem perda muscular geralmente apresenta mais infecções ao longo do tratamento, ainda mais quando ele envolve drogas que já diminuem a ação das nossas defesas."
Segundo o médico, estudos apontam que, independentemente da droga usada na quimioterapia, a toxicidade do tratamento é maior em quem tem baixa muscularidade, ou seja, baixa quantidade de massa muscular. Esse paciente sentirá mais fadiga, terá mais episódios de náuseas e vômito e outros sintomas nada agradáveis. Ou, às vezes, até insuportáveis. "Existem indivíduos que precisam interromper o tratamento oncológico por um período por causa dos efeitos adversos", nota o doutor Toledo. Isso, claro, atrapalha bastante suas chances de sucesso.
"A sarcopenia já seria um passo adiante, quando, além de quantidade, a pessoa perde força", ensina o nutrólogo do Einstein. "Na prática, ambas as condições diminuem a probabilidade de alguém superar o câncer", diz ele. "Até porque precisamos nos lembrar que o diafragma também é um músculo. Uma vez enfraquecido, a falta de fôlego, o cansaço e os problemas respiratórios aparecem." O médico chama a atenção que, até para engolir a comida, o indivíduo precisa que a musculatura da região não esteja depauperada pela doença ou pelo seu tratamento.
O ápice da musculatura de todos nós é por volta dos 40 anos. "Acontece um declínio e qualquer pessoa deve ter um cuidado ainda maior para preservar a musculatura, com boa alimentação e atividade física regular, quando entra nessa faixa etária", explica Diogo Toledo. Que é justamente a faixa etária de maior incidência de câncer, observo.
Por isso é bom saber a quantas anda a musculatura logo após o diagnóstico, não importando se é um tumor pequeno ou grande, mais ou menos agressivo.
Em grandes hospitais, de acordo com o doutor Toledo, isso é feito com um exame chamado DEXA, que usa doses baixíssimas de raio X para analisar a composição corporal, ou com a bioimpedância, que é bem mais fácil e acessível. "Mas não são todos os hospitais do país que têm um equipamento para realizar a bioimpedância, ainda mais que seria necessário uma tecnologia mais avançada", diz ele, referindo-se à bioimpedância multifrequencial.
Como o nome indica, ela usa correntes elétricas de diversas frequências e, com isso, os médicos podem obter o que chamam de ângulo de fase, que dá uma noção da integridade das fibras musculares. Portanto, o exame não informa apenas a quantidade de massa muscular que uma pessoa tem no corpo, mas a qualidade desses músculos, se já estão sendo abatidos pelo câncer ou não, que é o que se pode deduzir quando, em um escore que vai até dez, a pessoa tem um resultado abaixo de 4,5. "Este número aponta para uma musculatura que já está muito inflamada", explica o doutor. Leia, atacada e prestes a ser destruída.
"Mas, de novo, essa bioimpedância multifrequencial não é encontrada em todo lugar. Então, como poderíamos fazer o rastreio da massa muscular sem esse tipo de exame?", questionava-se Diogo Toledo. Foi daí a sacada do estudo, que provou que a relação entre creatinina e ureia, dosadas de forma simples no sangue, também seria capaz de acusar a perda de músculo.
"A forma mais eficiente para estimular a síntese muscular é o exercício resistido, a popular musculação", afirma Diogo Toledo. "Existem momentos do tratamento em que a pessoa sente muita fraqueza e cansaço, mas cabe à equipe de saúde ficar sensível e aproveitar janelas de oportunidade, quando o indivíduo se sente um pouco melhor, para fazer isso, com a ajuda de fisioterapeutas treinados em reabilitação, por exemplo."
Na sua área, a nutrologia, a arma são proteínas voltadas para melhorar a massa muscular e outras estratégias, inclusive para favorecer esse consumo, já que o próprio câncer traz algum grau de inapetência. E mais: "O que dita a taxa metabólica do nosso organismo são os músculos. Se eles estão reduzidos, o organismo talvez não sinta vontade de repor energia. É quando a boca se fecha e precisamos quebrar esse ciclo. O fato é: não podemos perder tempo e esperar para agir quando o paciente já inicia o tratamento contra o câncer com muscularidade baixa. Porque, depois, será mais difícil resolver."
O estudo segue. Os pesquisadores querem demonstrar agora que, diante do sinal amarelo da musculatura em declínio, compensaria, em termos de custos, empregar estratégias como as já citadas — exercício e alimentação especial — para evitar complicações comuns do tratamento oncológico. Eles já intuem a resposta.
Agora, além daquela relação entre os níveis de creatinina e ureia, estão levando em conta a medida da circunferência da panturrilha, em sua parte mais larga. "Se a fita métrica mostra uma panturrilha menor que 33 centímetros, em mulheres, ou 34 centímetros, em homens, isso é mais um alerta de perda de massa muscular e possíveis complicações no tratamento." Algo que uma fita métrica ajudará a prever — verbo que combina tão bem com outro, que é prevenir.
Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.
** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL




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