Eleitores que não concordam nem discordam de práticas antidemocráticas votam de forma similar aos que as apoiam explicitamente
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19.jul.2026 às 21h00
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Ana Luiza Albuquerque
Poucos americanos apoiam explicitamente atos antidemocráticos, mostra a literatura acadêmica. Ao mesmo tempo, em 2024, 77 milhões deles votaram no presidente Donald Trump, conhecido por disseminar alegações falsas de fraude eleitoral, adotar uma retórica agressiva contra a imprensa e opositores e atacar juízes que emitem decisões que o desagradam.
No Brasil, o cenário é similar. Às vésperas das eleições presidenciais de 2018, quando quase 58 milhões de brasileiros elegeram o então deputado federal Jair Bolsonaro (PL), o apreço pela democracia era recorde, segundo pesquisa Datafolha divulgada à época. Apenas 12% diziam que, em certas circunstâncias, é melhor uma ditadura do que a democracia.
Àquela altura, Bolsonaro acumulava um rol de declarações antidemocráticas —em 1999, por exemplo, disse que, caso eleito presidente, daria um golpe no mesmo dia e defendeu o assassinato de "uns 30 mil", começando por Fernando Henrique Cardoso.
Ou seja, ainda que apenas uma minoria apoie expressamente atos que minam as normas democráticas, a maioria elege candidatos que fazem exatamente isso. O que explica esse fenômeno?
No caso americano, pesquisadores da Universidade de Notre Dame (EUA) argumentam que essa aparente contradição pode ser justificada pela neutralidade democrática —ou seja, pelo grupo de cidadãos que não endossa abertamente práticas antidemocráticas, mas que também não se opõe a elas.
Quando perguntados sobre atos do tipo em pesquisas, são aqueles que selecionam a resposta "não concordo nem discordo".
No artigo "A ameaça subestimada da neutralidade democrática nos EUA", publicado em maio na revista científica "Nature Human Behaviour", Matthew Hall, B. Tyler Leigh e Brittany Solomon defendem que esse grupo de eleitores que não está lá nem cá, muitas vezes ignorado, inclusive, pelo meio acadêmico, representa uma grave ameaça para a democracia no país.
"Assim como os poucos americanos que endossam explicitamente violações das normas democráticas, os neutros (...) não parecem se importar se os políticos minam a democracia. Assim, os representantes eleitos têm mais margem de manobra para violar as normas democráticas do que sugerem pesquisas anteriores", escrevem eles.
A pesquisa concluiu que esses cidadãos se comportam "de forma similar aos que apoiam explicitamente práticas antidemocráticas no momento mais importante: nas urnas".
Para estudar o grupo, os pesquisadores se basearam em três pesquisas de abrangência nacional, sendo duas originais.
A partir de respostas a quatro práticas antidemocráticas (reduzir o número de seções eleitorais de outros partidos; ignorar decisões judiciais contrárias ao partido; ser leal ao partido em detrimento da Constituição; censurar a mídia partidária), os autores estimaram a prevalência de três grupos no eleitorado. São eles: os que apresentam neutralidade em relação a práticas antidemocráticas (NUP), os de oposição (OUP) e os de apoio (SUP).
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Analisando os resultados, os pesquisadores concluíram que cerca de metade dos americanos manifesta algum tipo de neutralidade democrática. Eles também constataram que até dois terços dos entrevistados eram neutros ou apoiavam a violação de ao menos uma norma democrática.
Em uma das pesquisas originais, para identificar o que motiva os americanos neutros, os autores perguntaram o que eles pretendiam transmitir ao selecionar o ponto médio em resposta às perguntas sobre práticas antidemocráticas.




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