Andrew Downie diz que o Brasil não pode mais confiar no 'futebol arte', baseado no improviso e no talento individual, em vez da organização coletiva e da disciplina tática
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17.jul.2026 às 14h18
O jornalista escocês Andrew Downie teve o privilégio de testemunhar a alegria do Brasil quando o país venceu a Copa do Mundo pela última vez, em 2002. Àquela época, ele vivia entre Rio de Janeiro e São Paulo e era correspondente de jornais de relevo internacional, como o americano The New York Times, o britânico The Guardian e a agência de notícias Reuters.
Foi nesse período que o jornalista estreitou seus laços com o futebol brasileiro, o que mais tarde lhe renderia dois de seus principais trabalhos: as biografias de Sócrates (Doutor Sócrates) e de Pelé (Epic), escritas a partir de centenas de entrevistas com personagens que marcaram a história do esporte.
Com a mesma honestidade com que admite que a seleção de seu país —a Escócia, derrotada pelo Brasil na fase de grupos— "é ruim", ele afirma que tanto o torcedor quanto o jogador brasileiro deveriam parar de se escorar nas cinco estrelas que ostentam na camisa verde e amarela.
"O brasileiro precisa aprender que não é mais referência. É preciso parar de se gabar de ser pentacampeão, porque isso não importa para a Noruega, o Japão, a Argentina ou para quem quer que esteja jogando contra o Brasil. Eles não têm mais medo do Brasil", diz Downie, por videoconferência, à BBC News Brasil.
"O que importa no próximo jogo é o jogador e o esquema tático. Ter ganhado cinco títulos é um fato histórico, mas realmente não é relevante hoje."
Ele se lembra do comportamento de Neymar. Ao converter o pênalti que encerrou a partida contra a Noruega, a da eliminação do Brasil nesta Copa, o camisa 10 esbravejou contra o goleiro norueguês Ørjan Nyland, que havia lhe feito provocações. "Respeita o Brasil! Cinco estrelas!", ele teria dito.
Para o especialista, se o Brasil quer reverter essa maré de fracassos, é preciso, primeiro, deixar o passado de lado. Ele explica que, se antes o país reunia alguns dos melhores jogadores do mundo, hoje essa vantagem já não existe.
"Pelé sempre falava: 'A gente tem uma técnica melhor do que qualquer outro time'. E era verdade. Ninguém tinha o toque de bola ou o drible do Brasil. Mas isso não é mais suficiente", diz.
Downie opina que outras seleções têm jogadores mais habilidosos, como Messi, com drible melhor do que o de Vinícius Jr., ou Olise, da França, que comanda o meio-campo melhor do que Casemiro ou Paquetá. Também tem Harry Kane, na Inglaterra, que marca gol melhor do que qualquer outro jogador brasileiro; Martínez no gol da Argentina, ou Courtois no da Bélgica, que "são tão bons como Alisson e Ederson".
"O nível de jogador é muito mais nivelado hoje. Não tem escola brasileira, escola uruguaia, como tinha há 40 anos, que faça diferença", acrescenta.
O jornalista explica que o estilo de jogo brasileiro, marcado pelo improviso e pelas habilidades individuais de cada atleta —o cultuado "futebol arte"—, não garante mais vitórias na Copa.
Para ele, a discussão nem é se os brasileiros que Carlo Ancelotti escolheu para disputar o Mundial ainda têm essa habilidade, mas o fato de que, hoje, é preciso alinhar essas qualidades a uma estratégia tática.
"Essa criatividade não é valorizada como antes, porque o mais importante para um técnico como Guardiola, Mourinho ou Ancelotti é saber jogar em um sistema. A tática é mais importante do que o poder do drible", diz ele, em contraste com um período em que "o Brasil sempre sabia que poderia ganhar com um pouco de criatividade, espontaneidade, gambiarra, uma malandragem".
Para Downie, a instabilidade institucional do futebol brasileiro também prejudica a seleção. Desde o fim da era Ricardo Teixeira, que presidiu a Confederação Brasileira de Futebol (CBF) por 23 anos, até 2012, a instituição teve 11 dirigentes —uma média de um novo comandante a cada 14 meses.




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