Escritora angolana será um dos destaques da Flip neste ano

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O Sangue da Buganvília

Preço R$ 79 (232 págs.) Autoria Ana Paula Tavares Editora Pallas

Ana Paula Tavares é uma anatomista do corpo feminino. Por meio da poesia, ela se debruça sobre veias, lábios e ventres para dissecar a feminilidade em suas diferentes facetas. Em um exame minucioso, a angolana retrata a mulher não como objeto de estudo, mas como um ser desejante e emancipado.

"Conhecia muitas alusões ao corpo feminino sempre com um olhar de fora e descritivo", diz a poeta. "E eu me interrogava: ‘O que as mulheres pensam sobre o seu próprio corpo?’"

É uma das perguntas que movem o projeto estético da escritora, um dos nomes mais respeitados da literatura contemporânea em língua portuguesa, vencedora do prêmio Camões e convidada de destaque na Festa Literária Internacional de Paraty, a Flip, na próxima semana.

Doutora em antropologia pela Universidade Nova de Lisboa e professora da Universidade Católica de Lisboa, a autora de 73 anos escreveu livros como "O Lago da Lua" e "Amargos como os Frutos", coletânea de poesia publicada no Brasil pela Pallas.

Algumas de suas produções reviram as vísceras do eu lírico para revelar o que se passa em sua subjetividade. É o que pode ser sentido em um dos poemas de "Ritos de Passagem" —primeiro livro da autora, publicado em 1985.

"Desossaste-me/ Cuidadosamente/ Inscrevendo-me/ No teu universo/ Como uma ferida/ Uma prótese perfeita/ Maldita necessária/ Conduziste todas as minhas veias/ Para que desaguassem nas tuas."

No final, o poema muda de tom e sinaliza a recusa à subserviência doméstica. "Hoje levantei-me cedo/ Pintei de tacula e água fria/ O corpo aceso/ Não bato a manteiga/ Não ponho o cinto/ Vou/ Para o sul saltar o cercado."

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A poeta diz que refletir sobre o corpo feminino não foi algo intuitivo, mas uma decisão consciente. "Não tenho a certeza de ter conseguido em sua totalidade, mas foi uma tentativa de tomar posse de um corpo que era meu."

A julgar pelo sucesso recente, esse projeto literário tem dado certo. No ano passado, ela se tornou a segunda mulher africana a ganhar o prestigiado prêmio Camões —o mais importante reconhecimento da literatura em português.

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Em nota à imprensa, o júri afirmou que a escritora promove o resgate de dignidade da poesia, além de ter uma fecunda e coerente trajetória de criação estética. Em 2021, Paulina Chiziane, de Moçambique, foi a primeira do continente a receber essa láurea.

Além da baixa presença de autores africanos entre os ganhadores, salta aos olhos a escassa representatividade feminina. Dos 38 laureados, apenas dez são mulheres.