O Papa Francisco na Laudato Sí; sobre o cuidado da Casa Comum (2015) submeteu a uma rigorosa crítica à tecno-ciência por ser uma entre outras causas da degradação da nautreza. Trata-se da vigência do paradigma do dominus (ser o dono), imperante em toda a modernidade sem o ser humano sentir-se parte da natureza. A este [...]

O Papa Francisco na Laudato Sí; sobre o cuidado da Casa Comum (2015) submeteu a uma rigorosa crítica à tecno-ciência por ser uma entre outras causas da degradação da nautreza. Trata-se da vigência do paradigma do dominus (ser o dono), imperante em toda a modernidade sem o ser humano sentir-se parte da natureza. A este paradigma do dominus, o Papa na Fratelli tutti (2020) contrapõe o paradigma do frater (irmão e irmã). Todos os seres são nossos irmãos e irmãs, porque todos viemos do mesmo pó da Terra. Ademais, todos, dos mais ancestrais, passando pelos dinossauros, pelos pássaros e chegando a nós, possuimos o mesmo código genético de base, os 20 aminoácidos e as quatro bases fosfatadas. Daí se deriva uma fraternidade universal, entre os humanos e estes com todos os demais seres da natureza. Um laço de amor e de amizade, enfatiza a encíclica, deveria envolver a todos.

Essa fraternidade universal projeta outro tipo de mundo, de política, de economia, começando desde baixo, da região, sempre a serviço da comunidade de vida, seja da natureza, seja dos humanos, particularmente dos mais vulneráveis. Daqui nasce uma nova ética de solidariedade e de cooperação que possui na parábola do bom samaritano, detalhadamente analizada pela Fratelli tutti, o seu ponto de referência exemplar.

A estratégia é vigiá-lo, subtraindo-lhe espaços de liberdade de tal foma que possa ser contido dentro do sistema imperante, capitalista neoliberal especulativo. Esta encontra nomes mais suaves para serem melhor absorvidos, sem mudar sua lógica: “democracia de mercado” ou de “capitalismo democrático”.

Essa estratégia de controle e de vigilância devido à crise climática enfrentará grandes distúrbios sociais. Pretendendo salvar a humanidade de sua perversidade natural, a subjuga totalmente.

É nesse sentido que a Magnífica Humanitas submete à rigorosa crítica, mesmo reconhecendo-lhe alguns méritos, o transhumanismo e o póshumanismo. O transhumanismo visa explorar ao máximo as habilidades humanas mediante expedientes técnicos e biológicos visando maior eficiência em função da acumulação. O póshumanismo é mais radical, pois visa a acoplar de tal forma o ser humano à máquina e à natureza que inovaria a história e fundaria uma nova era geológica à semelhança do antropoceno.

Todas estas propostas são derivações do paradigma da modernidade, do dominus, o ser humano se apropriando de tudo e colocando-se fora e acima da natureza. Por mais severa que seja a observação, importa reconhecer que este projeto que exclui a transcendência e se apoia apenas nas ações humanas, realiza a construção da Babilônia denunciada pelo Pontífice. Ele não aponta para uma maior humanização e para relações sociais mais amigáveis. Dada sua lógica interna de competição sem solidariedade tal projeto pode nos levar à autodestruição. Isso já fora anteriormente advertido pelo cosmólogo Carl Sagan ao considerar o risco da difusão de armas letais. Ele cunhou a expressão o princípio da autodestruição.

2. A antropologia do cuidado e da prevenção

A esta antropologia da vigilância e do controle se opõe a antropologia do cuidado e da prevenção, a reconstrução da Jerusalém que, junto ao esforço humano, inclui uma referência ao transcendente, a Deus. A vantagem desta categoria do cuidado é que ela pertence à essência do ser humano, como foi visto desde a fábula 220, de Higino, na antiguidade romana e aprofundada por Martin Heidegger em seu Ser e Tempo e a enfermeira inglesa Florence Nightingale. A Carta da Terra e a encíclica do Papa Francisco tem como subtítulo: Sobre o cuidado da Casa Comum.

O cuidado representa uma relação não agressiva e amigável para com tudo o que existe e vive. Se as Big Techs e a IA fossem imbuídas de cuidado e do princípio da prevenção de males possíveis, jamais poriam em risco a vida humana e o futuro do planeta com toda a sua biodiversidade.

Este paradigma do cuidado emerge como o mais adequado à proposta do Papa Francisco e do Papa Leão XIV e do melhor da reflexão ecológica, de um mundo caracterizado pelo amor e pela amizade. Ele está dentro das possibilidades humanas. A visão antropológica de Peter Thiel esquece que o ser humano é por essência um ser de amor como foi demonstrado pelos biólogos James Whatson, Humberto Maturana e Francisco Varela, ambos chilenos. Igualmente é um ser de solidariedade, pela qual ele deu o salto da animalidade para a humanidade. A new science atual afirma ser a espiritualidade um dado objetivo da natureza humana, como é a razão e a vontade. Revela-se pelo amor, pela cooperação, pela abertura ao Mistério do mundo, na linguagem de cosmólogos chamado de All-nourishing Abyss (Abismo gerador de tudo).

A sociedade da vigilância e do controle treina as pessoas, a sociedade do cuidado, as educa. Essa educação é urgente se quisermos continuar vivendo neste planeta vivo, nossa pátria e mátria comuns. Então não se realizará a advertência do Papa Francisco na Fratelli tutti: “Estamos todos no mesmo barco. Ninguém se salva sozinho. Ou nos salvamos todos ou ninguém se salva”. O Papa Leão XIV, com sua Magnífica Humanitas, nos oferece orientações viáveis para garantirmos um futuro bom para a humanidade, a Casa Comum e a natureza.

Vale a esperançosa sentença de um estudioso da cultura patriarcal, o brasileiro Antonio Sales Rios Neto, que seguramente vai na linha positiva da Magnífica Humanitas e da nova ecologia: “Iniciativas emergirão a ponto de tornarem possível uma democracia planetária, que abraça o pluralismo de modos de viver e uma economia que reencontre o seu sentido original – a preservação da vida e o cuidado da nossa única Casa Comum –, a tempo de evitar a interrupção prematura da experiência humana. Não custa muito imaginar e tentar!” Assim o queira Deus.