Sondagens são apenas o frame de um filme em constante movimento

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19.jul.2026 às 19h59

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A próxima frase contém uma informação que alguns podem considerar dramática. Lá vai: não espere encontrar uma previsão eleitoral numa pesquisa. Sim, parece uma loucura, mas a verdade é bem diferente do que pensa muita gente e, espantosamente, também Kassio Nunes Marques, presidente do Tribunal Superior Eleitoral do Brasil, que quer criar um selo de "acurácia" para os institutos de pesquisas mais certeiros.

Vale a pena revisitar a imagem que ficou para a história como o símbolo do fracasso das pesquisas. É de Harry S. Truman, depois de vencer as eleições em novembro de 1948, contra as previsões unânimes dos institutos de pesquisa e jornalistas políticos da época, a segurar, divertido e triunfal, a capa do Chicago Daily Tribune do dia anterior, que vaticinava na sua manchete "Dewey derrota Truman".

Ao contrário do antecipado, o governador de Nova York perderia a corrida. Desde então deveria ter ficado inscrito em vermelho nos anais da ciência política que as pesquisas eleitorais não são bolas de cristal.

Quase oito décadas depois, estranhamente, há quem ainda não tenha percebido que as pesquisas são apenas retratos de um momento, um "frame" de um filme que está em constante movimento, e não uma antecipação dos resultados das eleições.

Tratá-las como adivinhações do futuro só pode ter duas explicações: propaganda ou pura ignorância. Com essa afirmação não estou desvalorizando o importante papel que podem ter para ler uma corrida eleitoral e a evolução do momentum de uma campanha, estou só alertando para o fato de ninguém —leitores, jornalistas, políticos— lhes poder atribuir características que elas não têm. Quem nasce lagartixa nunca chega a jacaré, e o que nasce pesquisa não chega a oráculo.

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Perceber o todo pela parte é sempre uma tarefa complexa. As sondagens são levantamentos que dão indicações das intenções de voto e da popularidade dos políticos, e nunca as podemos considerar completamente fiáveis.

Simplesmente porque elas contêm variações de medição tendo em conta que as amostras e os inquiridos podem mudar a sua orientação até ao momento de ir às urnas. Ultimamente, tanto no Brasil como em Portugal, nota-se que os eleitores decidem o sentido de voto mais perto do dia da votação. Isso dificulta e muito qualquer projeção de resultados.

E depois, há questões fundamentais a considerar para perceber a confiabilidade de uma pesquisa de opinião: qual a dimensão da amostra? As perguntas foram neutras ou empurraram numa direção (push poll)? Qual a margem de erro associada? Qual a percentagem de indecisos e como foi feita a sua distribuição? A forma de minorar algumas destas potenciais fraquezas é, por exemplo, olhar para agregadores que reúnem as tendências de várias sondagens.

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É preciso também perceber que as pesquisas podem surtir efeitos decisivos no próprio ato eleitoral. Uma disputa que parece muito renhida pode mobilizar o eleitorado numa determinada direção. Mas, se a percepção dos eleitores é a de que uma eleição já está ganha, pode haver tendência para desmobilizar. A realidade é dinâmica.