Retaliação imediata é pré-requisito para negociar com governo Trump, que opera por fato consumado
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19.jul.2026 às 22h00
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Philip Yang Fundador do Urbem (Instituto de Urbanismo e Estudos para a Metrópole) e conselheiro do Cebri (Centro Brasileiro de Relações Internacionais)
Pesquisadora sênior do Peterson Institute for International Economics e professora da Universidade de Georgetown, nos EUA
Convém começar com um agradecimento. Ao anunciar a tarifa de 25% sobre produtos brasileiros, o USTR (Escritório do Representante do Comércio dos Estados Unidos) publicou também uma lista de exceções que cobre dois terços das nossas exportações. Café, suco de laranja, carne, ferro-gusa, aviões e peças de aeronaves: tudo o que encarece o café da manhã do eleitor americano ou paralisa fábricas foi cuidadosamente poupado. Washington acredita ter divulgado um ato de força; divulgou um inventário de vulnerabilidades. Raras vezes um governo entrega ao adversário, com tamanho zelo burocrático, o mapa dos pontos onde mais teme ser atingido.
O tarifaço não tem lógica econômica. Os Estados Unidos têm superávit de US$ 14 bilhões com o Brasil, e nem a aritmética tosca que trata déficit como prova de deslealdade se aplica ao nosso caso. Trata-se de punição política, e o Brasil é o caso de teste: se a tarifa derrubada pela Suprema Corte puder ser reerguida pela Seção 301 contra nós, será reerguida contra todos.
O governo brasileiro fala em OMC e em lei de reciprocidade. Está certo, e é pouco. O registro na OMC é necessário e inócuo, com o órgão de apelação paralisado por obstrução dos EUA. A reciprocidade opera no tempo do direito, com prazos e consultas, enquanto Trump opera no tempo do fato consumado. Responder a um método de choque com um método de protocolo é aceitar perder.
Nossa proposta é outra: retaliar já, e exatamente onde a lista de exceções manda. Suspender, de imediato, exportações de café, suco de laranja, carne, ferro-gusa e peças de aeronaves para os Estados Unidos. Não por rancor nem por prazo indefinido, mas como demonstração calibrada de que o custo da agressão recai sobre quem a pratica. 30% do café consumido nos Estados Unidos é brasileiro; o suco de laranja depende do Brasil; a carne segura o preço do hambúrguer; as peças da Embraer sustentam frotas e cadeias industriais; o aço não tem substituto doméstico para o ferro-gusa brasileiro. São os itens que produzem inflação no supermercado, o único idioma que este governo entende: o do eleitor irritado.
Nióbio e terras raras podem compor uma segunda camada, dirigida à defesa e à tecnologia. Mas a prioridade é o que dói amanhã de manhã, e o calendário manda agir já. Com eleições de meio de mandato em novembro, a inflação chegaria às prateleiras no momento de máxima sensibilidade política. Esperar o protocolo é desperdiçar o único semestre em que esse custo pode ser cobrado nas urnas.
Dirão que Trump gosta de confusão e que a escalada é perigosa. É verdade. Mas a própria lista revela que a capacidade americana de escalar é menor do que a retórica sugere: dois terços do comércio foram poupados porque não podiam deixar de ser. Não reagir, e isso quase nunca é dito, também tem preço. Caso de teste que não reage vira precedente. O Brasil que aceitar os 25% de julho aceitará os 12,5% da semana seguinte e o que vier depois. Quando a China respondeu com controles sobre terras raras, em outubro de 2025, Washington recuou em semanas; quem cedeu cedo ficou preso a termos piores. Com este governo, retaliar é pré-requisito para negociar.
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Dirão que "já" é juridicamente impossível. Não é. O imposto de exportação pode ser fixado por decreto, via Camex, com amparo em lei de 1977, sem passar pelo Congresso. Ao contrário de embargos e quotas, é defensável na OMC. Trump opera por fato consumado? O Brasil também tem o seu.
Dirão, por fim, que a retaliação impõe sacrifício aos nossos exportadores. Impõe. Cafeicultores, frigoríficos, siderúrgicas e a cadeia aeronáutica arcarão com perdas temporárias, que cabe ao governo mitigar. Mas há momentos em que setores precisam agir como país, não como planilha. O sacrifício de um semestre compra o que nenhum lobby compra sozinho: a condição de negociar de pé. Ao final, ganham todos, sobretudo o setor que aceitou perder primeiro.
Reciprocidade é a linguagem de quem pede para ser tratado como igual. Retaliação imediata é a linguagem de quem se comporta como igual. Washington nos entregou a lista. Falta apenas usá-la.
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