Christopher Nolan conseguiu um feito raro: transformar um dos textos fundadores da civilização ocidental em mais um capítulo da guerra cultural. “A Odisseia” virou alvo da extrema direita meses antes de chegar às telas. Elon Musk e influenciadores conservadores passaram semanas atacando a produção por causa de duas escolhas de elenco: a vencedora do Oscar [...]

Christopher Nolan conseguiu um feito raro: transformar um dos textos fundadores da civilização ocidental em mais um capítulo da guerra cultural.

E é justamente aí que Nolan provoca seus críticos. Logo na abertura, o diretor rompe com todas as expectativas. Em vez de apresentar Odisseu (Matt Damon), Penélope (Anne Hathaway), Telêmaco (Tom Holland) ou Atena (Zendaya), o primeiro personagem da história é Sinon, interpretado por Elliot Page.

Sinon sequer aparece na Odisseia de Homero. Ele pertence ao ciclo da Guerra de Troia e é o soldado encarregado de convencer os troianos de que o gigantesco cavalo de madeira deixado pelos gregos era um presente de paz. Os troianos matam o mensageiro, levam o cavalo para dentro da cidade e selam seu destino.

A escolha de Nolan já diz muito sobre sua proposta. O filme não pretende celebrar heróis, e sim questioná-los. É um épico psicológico, digamos, sobre um soldado com PTSD. Perfeito para os dias de hoje, em que Trump e Netanyahu eliminam crianças em escolas no Irã e Gaza sofre um genocídio.

O mesmo medo se espalha por Ítaca. Nolan nunca menciona imigração explicitamente, mas a analogia é evidente.

A paranoia coletiva lembra os discursos contemporâneos que descrevem estrangeiros como uma ameaça existencial à civilização ocidental — exatamente a retórica frequentemente usada por animais como Elon Musk e outros.

A maior ruptura do filme está na construção de Odisseu. O herói clássico deixa de ser apenas o estrategista genial responsável pela maior vitória militar da Grécia.

Troy is an epic movie

— Elon Musk (@elonmusk) May 12, 2026

Ele se transforma em um homem destruído pela culpa e revive constantemente o massacre que comandou em Troia. Em suas lembranças, o presente oferecido aos inimigos deixa de representar inteligência militar e passa a simbolizar uma armadilha monstruosa, um falso gesto de amizade que escondia uma máquina de extermínio.

Quando encontra o fantasma de Sinon no mundo dos mortos, recebe uma acusação devastadora. O soldado lembra que foi abandonado para morrer sem sequer saber toda a verdade sobre o plano. Nem mesmo teve direito a um enterro digno.

A partir desse encontro, Odisseu percebe que foi ele quem rompeu aquilo que os gregos chamavam de Lei de Zeus. Foi ele quem destruiu as regras básicas de confiança e hospitalidade entre os povos. Nolan estabelece então uma analogia clara com seu filme anterior.

Essa culpa acompanha todo o filme. Quando enfrenta as sereias, elas não tentam apenas seduzi-lo. Obrigam-no a revisitar seus maiores fracassos, seus crimes e as consequências humanas de suas escolhas.

É uma desconstrução radical da figura do herói clássico. Odisseu continua sendo brilhante, mas também é um homem envelhecido, exausto e traumatizado por vinte anos de guerra.

É por isso que a reação da extrema direita acaba revelando uma ironia. Os ataques começaram por causa de uma atriz negra interpretando Helena de Troia e de um ator trans vivendo um personagem tratado pelo filme como nobre e leal.

Mas o que realmente incomoda é outra coisa.

Nolan usa um dos pilares da tradição ocidental para desmontar a ideia de que a guerra produz heróis incontestáveis. Sua adaptação transforma a maior epopeia da Antiguidade em uma reflexão sobre culpa, violência, xenofobia e as consequências morais das vitórias militares.