Especialista alerta para 'colonização do Estado pelo crime' no Rio de Janeiro

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19.jul.2026 às 23h00

Com uma campanha marcada pela participação de policiais, milicianos e conflitos nas ruas, Belford Roxo (RJ) ganhou dimensões nacionais em 2022 com o recorde registrado pela dobradinha formada deputada federal Daniela Carneiro (Republicanos) e o ex-deputado estadual Márcio Canella (União).

Daniela obteve 48% dos votos válidos na cidade para a Câmara dos Deputados e Canella, 46% para a Alerj (Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro). Nenhuma outra cidade com mais de 200 mil eleitores, onde há segundo turno, concentrou tantos votos para esses cargos em todo o país naquele ano.

O domínio local sem precedentes catapultou as duas lideranças locais para voos nacionais. Daniela ganhou o cargo de ministra do Turismo no governo Lula e só caiu após divergências com seu antigo partido, o União Brasil. Canella almeja uma vaga no Senado, na chapa do senador Flávio Bolsonaro (PL), pré-candidato à Presidência, mas tem a postulação em dúvida após ser alvo de operação da Polícia Federal.

A dupla, atualmente rompida, evidencia a ascensão de agentes com vínculos políticos com grupos criminosos nas estruturas do poder a partir da crescente concentração de votos em territórios do Rio de Janeiro.

Especialistas afirmam que as ambições nacionais de figuras como Canella e Daniela são restritas. Mas servem para ampliar seu poder local, bem como a capilaridade de sua influência.

"Eles [Canella e Daniela] são emblemáticos de como a dinâmica local tem pouca relação com a nacional. Ela é muito mais direcionada a esse tipo de relação com as lideranças do território, que são lícitas e não lícitas", diz a cientista política Mayra Goulart, coordenadora do Lappcom (Laboratório de Partidos, Eleições e Política Comparada), da UFRJ e UFRRJ.

A relação entre crime e política no Rio de Janeiro deixou as conversas de bastidores para uma disputa aberta a partir dos desdobramentos da Operação Unha e Carne, da Polícia Federal.

O ministro Gilmar Mendes, do STF (Supremo Tribunal Federal), disse que metade dos deputados da Alerj tinha "relação com o jogo do bicho". O presidente Lula comemorou a permanência do desembargador Ricardo Couto no cargo de governador porque "se a Assembleia tivesse que indicar, viria um miliciano".

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A relação entre crime e política no Rio de Janeiro remonta à atuação paralela de policiais em grupos de extermínio ou mesmo em operações com orientação letal, apontam especialistas. O monopólio do uso da força nestes casos, segundo pesquisadores, se tornou ao longo do tempo uma moeda que ampliou o poder de agentes de forças de segurança que atuam à margem da lei.

"Esses caras passam a ter o direito sobre a vida e a morte. E, se eles têm esse direito, eles têm a capacidade de negociar, precificar a vida e a morte das pessoas", afirma o cientista político João Trajano Sento-Sé, do Laboratório de Análise da Violência da Uerj.

Ele descreve como esses grupos se ampliaram ao longo do tempo e passaram a ter uma convivência social, normalizando sua atuação política.

"Eles fazem uma espécie de segurança informal privada de domínio público financiada por comerciantes e o baixo empresariado local, recrutando inclusive agentes do Estado. A gente passa a ter um padrão de interação promíscua entre o mundo do crime e a sociedade formal", afirma.